Dylan Dog 465 e 466: a estreita fronteira entre pesadelo e realidade

Leonardo Fraga
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O bosque, a mata fechada, os animais. O canto de uma coruja nos faz acompanhar seu olhar atento até uma casa onde acaba de acontecer um crime hediondo: uma família assassinada e um bebê chorando. Uma criatura surge para buscar a criança que é protegida por uma familiar. A criatura é o Wilderman.




Nesse clima tenso e macabro, que remete diretamente ao suspense e tensão dos filmes de Dario Argento, começa Dylan Dog 465: Se la notte chiama (Se a noite chama). Com roteiro de Barbara Baraldi e desenhos de Corrado Roi, a dupla entrega uma fábula sombria, de atmosfera pesada, que se encerra na edição 466, Chi è sepolto in questa casa? (Quem está enterrado nesta casa?).

Logo após a introdução, conhecemos Siobhan, uma jovem atormentada por crises de sonambulismo que a fazem dormir em um lugar e acordar em outro. Ela procura Dylan Dog e conta que tudo começou depois de uma festa, quando entrou em uma floresta próxima e encontrou uma criatura. Desde então, sente que aquele ser a chama durante o sono, levando-a de volta à mata. Para tentar protegê-la, sua mãe faz inscrições ao redor da cama, na esperança de impedir as visitas noturnas.






Antropóloga, Siobhan quer a ajuda de Dylan para investigar o Wilderman, a criatura que acredita a estar atormentando. Os dois seguem até Wildsborough, uma cidade estranha no interior da Inglaterra, onde os moradores olham os visitantes com desconfiança. Ali conhecem Agnes Nice, uma senhora que tem uma cabra preta chamada Lisa. É Agnes quem apresenta a Siobhan a história do Wilderman, uma figura lendária que os habitantes locais consideram bastante real.




A criatura remete às tradições do Green Man, o “Homem Verde”, ou do Wild Man, o “Homem Selvagem”. Na Inglaterra do século XVI, o nome Green Man era usado para participantes de cortejos vestidos de folhas, com cabelos e barbas desgrenhados, carregando grandes porretes. Alguns utilizavam fogos de artifício para abrir passagem entre a multidão.


Estátua do Wildermann localizado na Áustria. Foto de Dennis Jarvis.





Há representações semelhantes nas regiões de língua alemã, associadas ao Wilder Mann. Acredito que essa imagem germânica possa ter sido uma referência importante para Roi, até porque a própria Wildsborough lembra uma vila germânica. É uma impressão que nasce tanto da aparência da criatura quanto da maneira como o desenhista constrói aquele lugar.





Dylan participa de boa parte da trama quase como um coadjuvante, à margem dos acontecimentos. Durante a investigação, ele e Siobhan encontram uma loja escondida no fim de uma passagem estreita. Baraldi aproveita o percurso para recuperar a claustrofobia de Dylan. Superado o desafio, eles chegam ao antiquário O Antro de Zoe, cuja vitrine exibe um livro sobre o Wilderman.






Zoe conta a lenda original da criatura. Em uma casa no bosque viviam um lenhador, sua esposa e oito filhos. Nem todos os dias havia pão. Quando nasceu mais uma criança, o pai se recusou a lhe dar um nome, afirmando que o amor de uma mãe não bastava para saciar a fome. Certa noite, levou o bebê para a floresta e o abandonou nas raízes de uma árvore conhecida como a Mãe do Bosque, considerada encantada.





A árvore envolveu a criança com seus galhos, deu-lhe o nome de Wilder e a acolheu como um filho. Sua mãe humana, porém, não aceitava a perda e continuou procurando por ele. Compreendendo a dor daquela outra mãe, a Mãe do Bosque permitiu que o pequeno Wilder voltasse ao antigo lar.

Mas o pai e os irmãos o rejeitaram. Em seu coração já pulsavam os poderes da floresta que o acolhera. Wilder recusou aquele mundo e, como vingança, transformou sua família humana em árvores de carne. No lugar onde ficava a casa, restou uma pedra que conta sua história.






Na noite seguinte, Siobhan se levanta durante uma crise de sonambulismo e caminha para a floresta. Dylan vai atrás, mas se perde no labirinto de árvores e galhos. Ao chegar à pedra mencionada no livro, encontra o Wilderman. Um grito o leva até uma casa, onde Siobhan surpreende um casal, assustado com a presença dela.

A casa parece absorvê-la para outra realidade, na qual é recebida por duas criaturas sinistras que parecem conhece-la. Quando a edição 466 começa, depois de mais um assassinato violento, Siobhan acorda na pousada em que ela e Dylan estavam. Tudo o que viveu parece ter sido um pesadelo. Enquanto isso, Dylan precisa lidar com a polícia local: o sargento Doyle prende Groucho, que havia chegado para ajudar o amigo.





As histórias paralelas se multiplicam. Uma equipe de cinema grava um filme ao estilo de “A Bruxa de Blair”, mas brincar com a floresta está longe de ser uma boa ideia, principalmente quando a encenação envolve um falso ritual para a Mãe do Bosque. A cobrança veio de forma impactante.

Também conhecemos Freya, a dona da pousada Círculo Mágico em que Dylan e Siobhan se hospedam e Maud, seu filho. Um rapaz com dentes inferiores proeminentes, que lembram os de um orc. Além da senhora anã que anda com seu ganso e não sai do telefone público. São figuras que ampliam a estranheza daquela cidade, lembrando o clima da série Twin Peaks de David Lynch.






Enquanto os sonhos de Siobhan se misturam cada vez mais à realidade, o chamado do Wilderman se intensifica, e ela se afasta de Dylan. É então que ele resolve fazer o que já deveria ter feito desde o começo: ser o Investigador do Pesadelo.

Dylan vai a uma biblioteca e, pasmem, usa um computador para pesquisar as lendas ligadas ao Wilderman. Sua aversão à tecnologia vem mudando com o tempo. Entre as notícias pesquisadas, encontra pistas sobre um pacto que não foi cumprido e sobre o desaparecimento do casal Daisy e Stephen O’Brien. Helen, sobrinha do casal, havia ficado responsável pela filha deles até que retornassem.






A investigação o leva à antiga casa dos O’Brien, agora ocupada pelo casal Lenier, acordados por Siobhan na noite anterior enquanto estava sonâmbula. Dylan os encontra brutalmente assassinados. Ali, ouve Siobhan chamando por ele junto a raízes que vem a partir do porão da casa. Seguindo sua voz, chega a uma caverna, onde a encontra.

Pouco depois, aparece a mulher que ela conhece como mãe. Dylan descobre que ela não é realmente sua mãe e sim Helen, a tia que a resgatou na noite em que seus pais foram mortos. Siobhan era o bebê que o Wilderman foi buscar naquela noite fatídica.






Helen conta que Daisy adoeceu após dar à luz Siobhan e que Stephen rejeitava a filha. Desesperado para salvar a esposa, ele procurou o Wilderman e prometeu entregar a criança em troca da recuperação de Daisy. O pacto funcionou, e a criatura lhe deu três dias para cumpri-lo. Helen, porém, não estava disposta a entregar a menina.




A história chega a um desfecho surpreendente, ligando Helen à tragédia dos O’Brien e esclarecendo os outros crimes que aconteceram na cidade. Além de resolver a situação entre Siobhan e o Wilderman. Baraldi inclui muitos personagens interessantes, mas nem todos recebem um desenvolvimento satisfatório. Fica a vontade de conhecer melhor algumas dessas figuras, justamente porque o pouco que vemos delas desperta curiosidade.





No editorial, a própria roteirista comenta esse processo: “Durante a escrita, deixei-me guiar pelos personagens até as profundezas do bosque, e foi ali que encontrei suas vozes: os coadjuvantes ganharam cada vez mais força, e assim nasceram as diferentes ‘histórias dentro das histórias’”.

O roteiro cria uma trama onírica que sabe confundir o leitor e, ainda assim, entrega uma história consistente. Mas é difícil não sentir que toda a aventura foi construída para destacar o trabalho de Corrado Roi. A floresta, os animais, os rostos, as expressões e as criaturas sobrenaturais formam um universo visual que merece ser observado com calma.





Parte dessa atmosfera encontra eco nas experiências do próprio desenhista, desde as histórias que ouvia na infância até a convivência com a natureza. “Os contos de fadas nunca me bastavam, então meu tio os inventava, ou melhor, os distorcia”, conta Roi. O artista também lembra que nasceu ao lado de um bosque, cercado pelo verde e perto das montanhas. “É outro tipo de vida, onde nos surpreendemos com a natureza todos os dias.”

As imagens de violência têm grande impacto, e os enquadramentos felizmente escapam, em vários momentos, da grade rígida da Bonelli. Essa liberdade dá à narrativa um dinamismo que faz diferença. Talvez esteja aí uma das razões para a aventura ocupar duas edições, oferecendo espaço para que os desenhos ganhem mais destaque.




Ao ler, sentimos pelas imagens que estamos vivendo um pesadelo, porque Roi explora o realismo dos rostos e dos ambientes góticos, mas abre espaço para a subjetividade, para aquilo que não conseguimos distinguir completamente. A mata envolve os personagens, confunde os caminhos e parece guardar uma vontade própria.

Baraldi conta que a história nasceu de uma conversa com Roi sobre as dificuldades de ambos com o sono: ela sofre de paralisia do sono, ele, de insônia. “O sonambulismo é uma situação fascinante para uma história de horror. Eu nunca me lembro dos sonhos e estou convencido de que não tenho sonhos emotivos”, comenta o desenhista. Ele diz dormir de cinco a, no máximo, sete horas por noite, embora já tenha dormido muito menos para suprir demandas da Bonelli, e associa essa característica à mãe, que também descansava pouco.


Barbara Baraldi é escritora e estreou em Dylan Dog na edição Color Fest #9 (2012) com a história O Botão de Madrepérola, e na série regular em Dylan Dog 348 - A Mão Errada (2015). É editora da série desde maio de 2023.

Corrado Roi desenha Dylan Dog desde janeiro de 1987, quando estreou na edição italiana nº 4, O Fantasma de Anna Never, com roteiro de Tiziano Sclavi.


Desse encontro entre noites mal dormidas, lembranças de infância e fascínio pelo folclore dos bosques nasce uma aventura que nos convida a seguir seus personagens para dentro da mata. E, nas mãos de Corrado Roi, até o silêncio entre as árvores parece esconder alguma coisa assustadora deste Mestre das Sombras.






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