Doces, travessuras e mortes: um Halloween com Dylan Dog

Leonardo Fraga
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É 31 de outubro. As abóboras estão acesas, as fantasias saíram do armário e alguém acaba de tocar a campainha. Nada como uma boa história de terror para entrar no clima do Halloween e poucos personagens são tão apropriados para a ocasião quanto Dylan Dog.




Curiosamente, o Investigador do Pesadelo não é um grande entusiasta da festa. Ainda assim, algumas de suas aventuras mais divertidas envolvendo a data estão nas páginas de “Oldboy”, coleção paralela dedicada à sua versão clássica.

A proposta é preservar o ambiente e a caracterização do personagem que estreou em 1986, com histórias inéditas que recuperam aquela combinação de horror, humor, melancolia e muito slasher. A coleção tem suas raízes em “Maxi Dylan Dog”, lançada em 1998. Em 2014, a partir do nº 22, o título passou a trazer o complemento “Old Boy”, reunindo três aventuras por volume.




Depois do nº 38, publicado em 2020, veio uma reformulação, onde a numeração recomeçou, o nome passou a ser “Dylan Dog Oldboy” e cada edição ganhou duas histórias completas. Essa fase chegou a 29 números. Em 2025, outro reinício apresentou volumes de 96 páginas, agora com uma aventura por edição.

Entre tantas mudanças, uma tradição encontrou espaço: reservar ao mês de outubro, uma boa história de Halloween.

É o caso de “Halloween em Northwood”, publicada em 31 de outubro de 2019 na Itália em “Maxi Dylan Dog Old Boy nº 37”, com roteiro de Giovanni Eccher e desenhos de Fabrizio Des Dorides. Uma história daquelas que de desenvolve em uma “noite de terror”, onde tudo acontece e se resolve no mesmo dia.




Dylan pretende passar uma noite tranquila na casa da namorada, Emily, em Northwood, no noroeste de Londres. Seu programa envolve filmes de terror orientais e a agradável perspectiva de deixar os problemas do lado de fora. Mas o Halloween tem outros planos.

Enquanto isso, três crianças percorrem a vizinhança em busca de doces. A menina do grupo se chama Jenny, o gordinho atrapalhado é Buddy e o menino mais travesso que anda com uma faca de plástico na cabeça é Randy. Um pequeno pelotão de pestinhas, disposto a punir qualquer morador que não colabore. Vale chutar anões de jardim, cobrir casas com papel higiênico e inventar outras maneiras de infernizar a noite alheia.

O problema é que algo acompanha o trio. E essa presença leva as travessuras a outro patamar.





Depois que as crianças deixam determinadas casas que não lhes dão doces, os moradores sofrem mortes tão absurdas quanto cruéis. Um homem escorrega no capacho da porta da casa e cai sobre um anão de jardim, que atravessa seu peito. Uma mulher é guilhotinada pela janela que tentava fechar. Outro morador despenca ao tentar retirar o papel higiênico do telhado.





A lógica lembra o filme “Premonição” (2000), onde uma entidade misteriosa é a motivadora para que situações banais sejam responsáveis por resultados terríveis. Fabrizio Des Dorides aproveita muito bem essa combinação. Seu traço dá impacto às mortes e constrói uma vizinhança muito realista. O ângulos de câmera que adota também fazem a diferença, detalhando os cenários em perspectiva. Máscaras, expressões e sombras sustentam a atmosfera, enquanto o contraste entre preto e branco transforma o cenário suburbano em pesadelo.







Uma das sequências mais perversas começa com uma provocação aparentemente inofensiva. Um casal oferece balas às crianças, que logo descobrem o sabor: alho. Revoltados, o trio deixa uma mangueira aberta diante da porta e foge. A entidade completa a vingança ao aproximar uma tomada da água, eletrocutando o dono da casa.

A essa altura, fica claro que há algo muito pior do que crianças malcriadas circulando pelas ruas.






Bloch, Jenkins e Groucho entram em cena para investigar as mortes, e pedem a ajuda de Dylan. Que recusa pois está de folga. Mas Dylan vê seus planos de descanso irem para o ralo, pois Emily está cansada da péssima sessão de filmes de terror. Ela não quer desperdiçar uma das noites mais legais do ano, e decide que quer resolver um verdadeiro caso de terror com o Investigador do Pesadelo.

Os dois então saem para investigar os acontecimentos por conta própria. Durante a busca encontram a senhora Wayne, que oferece 20 mil libras para recuperar um anel desaparecido. Em meio à sucessão de mortes, o pedido parece estranho, mas um valor tão alto chama a atenção.





As travessuras atingem um ponto crítico quando as crianças provocam um incêndio diante de uma casa. A entidade impede a fuga dos moradores, transformando a brincadeira em uma ameaça de tragédia, evitada pela intervenção de Bloch e Jenkins. Assustados com o que aconteceu, o trio foge e encontra Dylan e Emily em um beco.

Dylan sempre teve muito jeito com crianças, e consegue fazê-las contar a verdade. Ao examinar a sacola de doces, encontra o anel da senhora Wayne. A ligação entre o objeto e os acontecimentos começa, enfim, a aparecer.







De volta à casa dela, Dylan e Emily descobrem a origem do pesadelo.

Muitos anos antes, também no Halloween, um homem usando uma máscara improvisada bateu à porta de uma família para pedir doces. Ao perceber que não se tratava de uma criança, o dono da casa o mandou embora. A “travessura” veio de forma brutal: o visitante invadiu a residência e assassinou o casal.

Os filhos conseguiram fugir e chamar a polícia. Dentro da casa, o assassino ainda mutilou os corpos antes de ser morto pelos policiais. Quando a senhora Wayne chegou ao local, encontrou o assassino, seu próprio filho, Larry.

Anos depois ela percebeu que o espírito dele permanecia na urna com suas cinzas guardadas em sua casa. Incapaz de se despedir, mandou produzir um diamante a partir delas e passou a carregá-lo em um anel.





O objeto caiu na sacola de doces das crianças durante a visita delas naquela noite. Desde então, o espírito as acompanhava, transformando cada travessura em motivo para matar.

Quando Dylan tenta convencer a senhora Wayne a deixar o filho partir, a situação sai do controle. A entidade ataca, e o casal precisa agir depressa. Os dois conseguem lançar o anel à lareira, encerrando aquela noite de terror. Caso resolvido. Folga arruinada.

Além do mistério e das mortes inventivas, a história deixa uma boa impressão por causa de Emily. Sua disposição para agir e a dinâmica com Dylan fazem dela uma presença que poderia render outras aventuras. Fica a pena de que os relacionamentos do personagem tantas vezes terminem junto com o final da edição.





A capa dos irmãos Raul e Gianluca Cestaro traduz bem o espírito da edição, colocando crianças e a atmosfera de Halloween em destaque. O volume de 292 páginas, ainda traz mais duas histórias completas.

Em “Il nuovo mondo”, Riccardo Secchi e Giulio Camagni apresentam crimes violentos cometidos por pessoas aparentemente sem motivo para matar. O desenho de Camagni é um dos grandes atrativos, com um traço elegante que torna as cenas perturbadoras ainda mais marcantes.




Já “Ti amo, Dylan!”, de Rita Porretto e Silvia Mericone, com arte de Paolo Armitano, coloca o investigador no centro de uma obsessão amorosa cercada de ameaças e violência. Armitano se destaca pela expressividade, pelas texturas e pela composição das páginas, mantendo a tensão mesmo nos momentos em que o roteiro perde força.




Uma edição de Halloween perfeita, com terror sobrenatural e humano, o que faz o Oldboy se destacar dentro desta temática. Depois da leitura, talvez você queira deixar uma tigela de doces perto da porta. Só confira o sabor das balas antes.




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