Os Santos: a hipocrisia dos “cidadãos de bem”

Leonardo Fraga
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Os Santos é uma HQ que incomoda. E que bom que incomoda. Há algo profundamente errado quando humilhações, abusos e preconceitos deixam de provocar indignação. O desconforto causado pela leitura é sinal de que ainda conseguimos reconhecer a violência, inclusive aquela disfarçada de costume, brincadeira ou favor.

O problema é que os personagens de Leandro Assis e Triscila Oliveira são familiares demais. Estão nas conversas de WhatsApp, nas reuniões de condomínio, nos almoços de domingo. Defendem a família, mas desprezam famílias diferentes das suas. Condenam a corrupção, mas encontram uma justificativa quando o dinheiro sujo paga o próprio conforto. Dizem respeitar os trabalhadores, desde que eles saibam “qual é o seu lugar”.

São os autoproclamados cidadãos de bem, santos de uma devoção bastante conveniente para eles mesmos.




Publicada a partir de 2019 em formato de tiras online, foi publicada em forma de HQ pela Todavia em 2023. “Os Santos” acompanha duas famílias cariocas: os Santos, brancos e endinheirados, e a família de Didi, mulher negra cujas filhas trabalham na casa deles há décadas. A proximidade entre as casas contrasta com o abismo entre as vidas.




Leandro Assis começou a série com o título Os Bolsominions, e a história tinha uma estrutura de humor. A partir da terceira tira, conta Leandro, o caminho mudou: a busca pela piada deu lugar ao drama, e a relação entre a família e os trabalhadores passou a ocupar o centro da narrativa. A história passou a se chamar Os Santos: Uma tira de humor ódio.




Triscila Oliveira é escritora, roteirista e ativista brasileira. Filha de uma trabalhadora doméstica, começou a fazer faxina aos 12 anos para ajudar a família. A parceria com Leandro nasceu nas redes sociais: ao acompanhar as primeiras tiras de Os Santos, Triscila comentou uma das publicações. Leandro conheceu seu trabalho e a convidou para dividir o roteiro, aprofundando a perspectiva das mulheres negras presentes na história.

Sua vivência oferece uma perspectiva essencial para a HQ, onde aprofunda as histórias, desejos, contradições e projetos das mulheres retratadas, que ultrapassam a inferiorização que os patrões impõem.




O título "Os Santos" é uma ironia certeira, porque de santos, eles não tem nada. Protegidos pela aparência de respeitabilidade e pelo aval da sociedade, posam de pessoas corretas enquanto praticam aquilo que dizem condenar. Fazem comentários racistas em ambientes privados e, em público, se apresentam como autoridades morais, sempre cheios de razão.

Sua suposta santidade se sustenta na cumplicidade de quem compartilha os mesmos preconceitos e prefere chamar de bons costumes o que é discriminação. A forma mais interessante de falar da HQ, é mencionando alguns personagens da trama, a começar pelo próprio Camilo Santos.




Patriarca da família e proprietário de um cartório, Camilo constrói sua fortuna por meio de um esquema de desvio de pagamentos de ITBI, o imposto municipal cobrado em compra e venda de imóveis. Com guias falsas e com um contato na Secretaria de Fazenda e de um Corregedor do Rio de Janeiro, não sofria fiscalização, mantendo o esquema por anos até o Corregedor falecer.

Mesmo investigado, Camilo nunca foi preso e depois deixou o filho cuidar do dinheiro da família. Como “cidadão de bem”, sua posição social não gera questionamentos quanto sua moralidade. O dinheiro fala mais alto.




Mesmo casado com Liege, Camilo assedia mulheres e chegou a ter um caso com uma antiga colega de trabalho, com quem teve um filho. Ao saber que o rapaz é homossexual, afirma que iria “endireitá-lo”, expondo a violência por trás de sua defesa da moral e dos bons costumes. O mais perturbador é a cumplicidade de seu meio social, que relativiza o assédio, a infidelidade e a homofobia, enquanto preserva sua reputação de homem respeitável.

A história de Didi expõe as raízes dessa relação. Levada ainda criança para trabalhar na casa dos Santos, sob a promessa de educação e de uma vida melhor. Ela atravessa décadas de exploração, onde mais tarde, suas filhas passam a servir à mesma família.




O que os patrões apresentam como ajuda tem um custo humano enorme. Ainda assim, Didi acredita que precisa ser agradecida pelo acolhimento e pelos empregos das filhas. O assédio moral é tão persistente e imperceptível, que consegue se apresentar como generosidade.

A personagem mostra como o afeto pode servir de disfarce para a exploração. A frase “é como se fosse da família” perde qualquer beleza quando é usada para exigir lealdade e gratidão, enquanto descanso, respeito e direitos são tratados como favores.




Filha de Didi, Edilsa substitui a mãe na cozinha da casa de Camilo e Liege e se torna o centro da narrativa. Seu trabalho envolve uma disponibilidade que parece não ter fim. O descanso, a intimidade e os planos pessoais precisam se ajustar às vontades dos empregadores.

Uma das passagens mais fortes acompanha, em paralelo, sua manhã e a de Liege. Edilsa acorda 5:30 da madrugada, enfrenta transporte público e assédio. Compra pão para o café dos patrões, toma banho e coloca o uniforme de trabalho. A patroa desperta somente às 9:10 e ainda reclama que a manteiga esteja dura. A solução, segundo ela, seria a empregada chegar mais cedo.




A cena dispensa comentários. O conforto de uma depende do desgaste da outra, e Liege sequer considera que esse esforço seja suficiente. Liege é autoritária e abusa de ordens, chantagens e humilhações. Para ela, reconhecer a humanidade da empregada parece significar abrir mão de seu conforto e de sua vida cheia de prazeres. Quando Edilsa engravida, sua maternidade é tratada como inconveniente. A família que gasta com viagens e enxoval nos Estados Unidos alega dificuldade para arcar com sua ausência após ter o bebê.

Renata, nora de Liege, também está grávida, mas vive uma realidade bem diferente. Consulta os melhores médicos e planeja cada detalhe da chegada do bebê sem se preocupar com a fatura do cartão. Edilsa, por sua vez, espera horas por atendimento e conta com a doação de um carrinho de bebê usado, que uma parente já não utiliza. As duas se preparam para ser mães, mas só uma tem o privilégio de fazer isso sem que o dinheiro seja uma preocupação constante.




Filho de Camilo e Liege, Caíque administra o dinheiro da família e participa de operações financeiras irregulares, usando contas de terceiros para movimentar grandes quantias. Por apenas 100 dólares mensais, ele usa uma conta em nome de Edilsa para movimentar milhões de reais, transformando a empregada em laranja de seu esquema. O assédio aqui ultrapassa o trabalho e afeta a identidade e a segurança financeira de Edilsa. Esse fato irá resultar em uma virada impactante na história.

Caique aproveita que a esposa viaja, e gasta dinheiro com prostitutas e tenta ainda assediar a babá dos filhos. Um canalha que tem uma vida chique, diz que racismo é mimimi, mas sua conduta pessoal é intolerável.




Os gêmeos de Caíque e Renata são muito diferentes. Um deles é o reflexo dos pais, mimado e se aproveita disso para conquistar seus objetivos. E o outro, é carinhoso e retribui o carinho por quem realmente cuida dele, respeitando sua babá e não levando em consideração o que a família pensa.

Em certa altura da trama, é mostrado como crianças de alta classe recebem cuidado constante, enquanto os filhos das mulheres que cuidam deles estão à mercê da violência, até mesmo no caminho da escola para casa.

O preconceito chega antes de qualquer apuração. Um menino é baleado pela polícia na favela e imediatamente tratado como suspeito, como se o lugar onde vive bastasse para associá-lo ao crime. Gabriel, namorado de Edilsa, tenta entrar em um banco para abrir uma poupança para o filho que vai nascer e enfrenta uma abordagem racista. A humilhação chega ao ponto de ele se despir para provar que está desarmado. Ainda assim, é sua reação que recebe condenação, enquanto a conduta do banco encontra justificativas. Nas duas situações, a vítima precisa provar sua inocência, e quem pratica a violência recebe o benefício da dúvida.




Filha de Didi, Ediviges consegue estudar e trabalhar em um banco, seguindo um caminho profissional diferente das irmãs. Essa conquista, porém, não a protege de todas as formas de violência. Ela namora Cris, e o casal enfrenta hostilidade por demonstrar afeto. Cris é abordada por um homem com camisa da seleção brasileira, que a ameaça com a intenção de “corrigir” sua sexualidade. Este é mais um dos momentos revoltantes da HQ.

O discurso que trata a existência LGBTQIAPN+ como ameaça à sociedade alimenta um ambiente em que esse tipo de agressão encontra justificativas, e em muitos casos levam à morte. Esta violência ganha legitimidade hoje em dia principalmente nas urnas, onde discursos homofóbicos são os mais aceitos e mais votados em câmaras de deputados pelo país.




Edilma, que trabalha na casa de Manu, filha de Camilo e Liege, carrega as marcas de uma violência sexual sofrida na casa dos Santos. O trauma abala sua autoestima e compromete suas relações. Depois de buscar ajuda com profissionais brancos sem encontrar a escuta de que precisava, ela encontra acolhimento em uma psicanalista negra. Nesse encontro, sua dor é compreendida também a partir das experiências de racismo e desigualdade que atravessam sua vida, sem que precise explicar ou justificar o peso dessas vivências.




Edilva e Edineia, também filhas de Didi, trabalham para os Santos e conciliam o serviço com a criação dos próprios filhos. Por meio delas, a HQ mostra o esforço de mulheres que enfrentam humilhações diárias e ainda tentam poupar os filhos do sofrimento que carregam. Com o pouco que ganham, buscam oferecer a eles uma vida melhor, enquanto suas próprias necessidades ficam em segundo plano. Delas se espera disposição para trabalhar e força para cuidar, quase nunca se reconhecendo o direito ao cansaço, à dor ou ao descanso.




Lucas, filho de Edineia, entra na faculdade de Direito por meio das cotas e trabalha como entregador para ajudar a família. Generoso e até ingênuo, compartilha a receita de brigadeiro da avó com uma amiga que, com o apoio financeiro do pai, abre um trailer e transforma o doce em um negócio lucrativo. A receita vem da família de Lucas, mas a oportunidade de ganhar dinheiro com ela fica com quem já tem recursos e facilidade para investir.

A desigualdade aparece também no contraste entre sua rotina e a de um colega de faculdade. Enquanto Lucas concilia estudo e entregas, o outro acorda tarde, joga tênis e consegue estágio pelos contatos do pai. Ainda assim, sente-se no direito de menosprezar Lucas por ser cotista.

Essa passagem desmonta a conversa fácil sobre meritocracia. Enquanto um precisa conciliar estudo e sobrevivência, o outro recebe vantagens que recebeu de berço e oportunidades conquistadas pelos outros. Afinal, ninguém disputa essa corrida partindo do mesmo lugar.




A HQ funciona como se fosse o carrossel do Instagram, que na HQ foi montada em uma grade com nove quadros que contam uma breve história em cada página. Ela tem um ritmo de novela, onde os acontecimentos vão se somando e formando uma história maior revelando um sistema de exploração que se reproduz entre gerações.

Ao acompanhar essas vidas, Os Santos expõe a distância entre a moral que seus personagens pregam e a violência que praticam. O bolsonarismo encontra terreno fértil nessa hipocrisia: oferece justificativa política a preconceitos antigos e transforma a defesa dos privilégios em bandeira moral. O racismo passa por opinião, a misoginia por brincadeira, a homofobia por defesa da família. E quem denuncia o abuso ainda precisa ouvir que está exagerando.




Leandro Assis e Triscila Oliveira mostram como essa violência se sustenta também na cumplicidade de quem ri, relativiza ou prefere não se envolver. Enfrentá-la exige mais do que indignação diante de um quadrinho. Exige rever o tratamento dado a quem trabalha, questionar os preconceitos tolerados entre amigos e cobrar responsabilidade de quem os transforma em discurso político.




Os Santos incomodam porque seus personagens (reais) continuam encontrando respeito e aprovação fora das páginas. São recebidos à mesa, defendidos nas conversas e eleitos nas urnas. Uma sociedade melhor depende de deixar de confundir dinheiro com mérito, poder com razão e aparência de respeitabilidade com caráter. Está mais do que na hora de esses “santos” perderem o pedestal.




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