Quem procurar Coda esperando
encontrar uma fantasia épica tradicional, com cavaleiros, goblins, jornadas perigosas e a eterna luta entre o bem e o mal, provavelmente vai se
surpreender. O roteirista Simon Spurrier e o desenhista Matías Bergara pegam
boa parte desses elementos, mas tratam de desmontá-los para construir uma
história que parece colocar O Senhor dos Anéis e Mad Max dentro do mesmo
caldeirão.
Publicada originalmente pela BOOM! Studios entre 2018 e 2019, Coda chega ao Brasil em edição integral de 320 páginas pela estreante Editora Orelha. A trama inicia justamente onde um grande épico costuma terminar: a guerra já aconteceu, o mundo foi devastado e a magia praticamente desapareceu depois de uma catástrofe conhecida como “O Apagão”.
Ainda existem monstros, criaturas
fantásticas, guerreiros, cidades móveis e artefatos mágicos, mas tudo agora
precisa sobreviver em um mundo quebrado, violento e marcado pela escassez. A
aventura grandiosa ficou no passado e o que restou foram pessoas tentando
descobrir como continuar vivendo depois do final.
Por falar nisso, é daí que vem o
título. “Coda” é palavra italiana para “cauda”, também é um termo musical usado
para a passagem que encerra uma composição. Na literatura, pode
indicar a parte final de uma obra ou narrativa.
Em Coda acompanhamos a história de
Hum, um ex-bardo que trocou poesia, histórias e canções por uma personalidade
cínica, solitária e rabugenta. O apelido vem justamente de sua resposta
habitual para quase tudo: um resmungo. Uma de suas características é ter uma prótese na perna direita, local onde guarda os mais variados objetos. Ele nem parece o herói da história.
Mente, manipula, engana e dificilmente faz alguma coisa sem pensar apenas nos
próprios interesses.
Sua montaria também não ajuda
muito a melhorar a aparência heroica da dupla. Nag é um pentacórnio, uma
espécie de unicórnio mutante com cinco chifres. Temperamento terrível,
comportamento violento e um vocabulário que faria muito aventureiro medieval
pedir licença para sair da taverna. A relação entre os dois rende momentos muito
divertidos na história.
Mas a verdadeira obsessão de Hum
é Serka, sua esposa, integrante dos Urken, uma raça guerreira criada para o
combate. Serka é praticamente uma máquina de guerra e carrega uma fúria
berserker incontrolável. Hum atravessa o mundo devastado procurando
ingredientes e conhecimentos capazes de produzir uma poção que, segundo
acredita, poderia libertá-la dessa maldição.
A habilidade do protagonista como
bardo está presente na maneira como Coda é narrada. Boa parte dos recordatórios
são cartas escritas por Hum para Serka. São textos bonitos, carinhosos e muitas
vezes românticos. O problema é que existe uma distância cada vez maior entre
aquilo que Hum escreve e aquilo que realmente faz.
Enquanto procura os meios
necessários para produzir a poção, ele acaba envolvido nas disputas entre
cidades e facções que tentam controlar o pouco que restou do antigo mundo. E é
nesse ponto que o trabalho de Matías Bergara brilha, e brilha muito.
Apesar de pós-apocalíptico, o
universo de Coda está longe de ser vazio, pelo contrário: é um mundo abarrotado
de coisas. Bergara parece se recusar a desenhar personagens genéricos. Roupas,
armas, armaduras, joias, máquinas, criaturas e construções recebem uma
quantidade enorme de detalhes, dando a impressão de que cada figura que aparece
em uma página possui sua própria história, com passado, presente e futuro. Sem
mencionar o colorido das páginas, feitas pelo próprio Bergara com a assistência
de Michael Doig que são belíssimas e preenchem cada canto dos desenhos.
Existem elementos reconhecíveis
da fantasia clássica, mas tudo convive com engenhocas improvisadas, sucata,
máquinas enormes e cidades que parecem ter sido construídas com aquilo que
sobrou depois do fim do mundo. É aí que entra Mad Max. A sujeira, os veículos e
mecanismos improvisados, a disputa por recursos e até os nomes grandiosos dos lugares
lembram aquele tipo de civilização remendada que nasceu depois do colapso.
Em Mad Max temos Bartertown e o
Thunderdome, em Coda temos Ridgetown e Thunderhead (que é uma incrível cidade
Goblin puxada por um gigante!). A diferença é que, em vez de gasolina ou água,
boa parte das disputas de Coda gira em torno da busca pela magia, ou Akker como
é conhecida.
Akker é o que sobrou da magia do
mundo após O Apagão, e se tornou uma espécie de moeda e fonte de energia
disputada por cidades, comerciantes e grupos interessados em preservar seus
privilégios. A magia em Coda serve para discutir desigualdade, escassez e a
disputa por recursos em uma sociedade que se acostumou a deixar parte de sua
população sem acesso ao básico.
Um dos primeiros lugares
importantes da jornada é Ridgetown, cidade governada pela prefeita Whunda
Satlark e protegida por uma enorme arma conhecida como Doomlauncher. Quando o
funcionamento dessa defesa fica comprometido justamente diante da possibilidade
de um ataque, Hum é incorporado aos Paladinos da Guarda da Paz e enviado em
busca dos recursos necessários para colocar a máquina novamente em
funcionamento.
Como mencionado antes, Hum está
atrás de seus próprios objetivos, e entra na Guarda da Paz apenas para
encontrar Ylf, um elfo cuja cabeça acaba roubando e carrega consigo. Mais
do que uma companhia inconveniente, Ylf é usado como fonte de magia e funciona como uma espécie de
consciência ambulante do protagonista, questionando suas decisões e,
principalmente, expondo o egoísmo escondido por trás do suposto plano de salvar
Serka.
Spurrier vai ampliando os
personagens e tramas gradativamente do universo de Coda e apresenta figuras
como Murkrone, uma sereia que se tornou chefe de guerra, comerciante de armas e
negociadora de substâncias mágicas. Ambiciosa e perigosa, cercada por
mercenários Urken, ela não quer controlar apenas recursos e territórios: também
está interessada em controlar as histórias que as pessoas contam sobre ela.
Conforme a trama avança, essa obsessão pelo poder transforma Murkrone em uma
das principais ameaças da série.
O antigo mago de Hum e sua filha,
Notch, uma ex-boba da corte que se tornou uma bandida e ótima combatente,
ajudam a expandir ainda mais esse mundo. O mago, que tem o visual clássico com
um manto e chapéu cheio de estrelas permanece isolado em sua torre, agarrado a
uma visão de mundo que praticamente deixou de existir e dependente das pequenas
quantidades de magia que ainda consegue obter.
Hum procura o mago para
desenvolver a poção destinada a Serka. Existe uma ironia interessante aqui: como
ex-bardo, Hum passa boa parte do tempo desprezando as antigas histórias e os
valores do mundo que acabou, mas continua procurando nos conhecimentos daquele
mesmo passado uma solução mágica para os próprios problemas.
É quando Serka finalmente entra
na história que Coda começa a revelar melhor o que Spurrier realmente pretende
discutir. Até então, Hum sustenta a ideia de que sua esposa precisa ser
encontrada e salva, mas logo percebemos que ela está muito longe de ser uma
donzela em perigo. Serka é uma guerreira Urken que percorre aquele mundo
enfrentando monstros e ajudando comunidades, ao mesmo tempo em que tenta
acertar as contas com o passado de seu povo.
Os Urken foram criados pelos
Witherlords, antigos senhores sombrios ligados à guerra que levou ao colapso do
mundo mágico, e carregam uma fúria guerreira imposta justamente para
transformá-los em instrumentos de combate. Serka quer se libertar desse legado
à sua maneira, enquanto Hum acredita que pode resolver o problema encontrando
uma forma de eliminar essa fúria descontrolada da esposa.
Mas, aquilo que Hum considera uma
demonstração de amor também revela sua dificuldade em aceitar Serka como ela
realmente é. Ao tentar protegê-la, ele acaba querendo decidir por ela e
moldá-la para uma vida que considera melhor, sem perceber que a esposa possui
seus próprios desejos e precisa escolher o que fazer com sua identidade.
Essa descoberta obriga Hum a
encarar suas próprias contradições e muda também a maneira como enxergamos sua
jornada. Aos poucos, aquele bardo cínico, manipulador e acostumado a colocar
seus interesses em primeiro lugar começa a perceber as consequências de suas
escolhas e a assumir responsabilidades que antes preferia ignorar. A
transformação não acontece de uma hora para outra, nem faz dele um herói
tradicional, mas torna sua trajetória muito mais interessante e leva o leitor
ao final épico de uma história verdadeiramente épica.
Coda é uma obra surpreendente que
merece ser lida com gosto. Simon Spurrier e Matías Bergara constroem um mundo
imenso, turbulento, estranho, engraçado e visualmente espetacular para contar uma história
profundamente íntima sobre amor, egoísmo, identidade e amadurecimento.
Como bardo, Hum sabe transformar a vida em uma bela história. Seu maior desafio, porém, é abandonar a versão confortável que inventou para si mesmo e reconhecer que amar alguém exige aceitar suas escolhas, mesmo quando elas não cabem no final que ele gostaria de escrever.










































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