Gabriel Dantas é um daqueles quadrinistas raros que
conseguem captar, com precisão quase desconcertante, a delicada transição entre
a adolescência e a vida adulta. Seu olhar é atento aos detalhes mais sutis
desse período instável, em que tudo parece provisório e definitivo ao mesmo
tempo. Em suas histórias, os personagens não são construções idealizadas: são
presenças quase reais, que respiram as incertezas, atravessam impasses e
tropeçam nas dúvidas que marcam o cotidiano.
É esse tipo de narrativa que encontramos em Pato Gigante, HQ publicada pela Ugra Press em 2022. A obra reúne 173 páginas de tiras originalmente publicadas no Instagram do autor (@bifedeunicornio), entre novembro de 2020 e dezembro de 2021, além de 25 páginas inéditas produzidas especialmente para a edição. O resultado é um retrato contínuo e sensível da rotina da adolescente Letícia, acompanhada por seu inusitado melhor amigo: um pato gigante.
1) Ele é um bom amigo;
A premissa pode soar excêntrica à primeira vista, mas
rapidamente se revela um dispositivo narrativo poderoso. Acompanhamos Letícia
em seu processo de amadurecimento, atravessando descobertas, paixões,
frustrações e confusões típicas dessa fase da vida. O Pato Gigante, mais do que
um elemento fantástico, funciona como confidente e conselheiro, uma presença
constante que a ajuda a organizar pensamentos e sentimentos. Em tempos em que o
diálogo interno é tão importante quanto o externo, ter “com quem conversar” faz
toda a diferença.
A origem do personagem, aliás, nasce de maneira
despretensiosa. O próprio Gabriel conta que costumava publicar rascunhos no
Twitter sempre que estava à toa, compartilhando ideias cruas, sem filtro. Foi
nesse fluxo criativo espontâneo que surgiram Letícia e o Pato, ainda sem
desenvolvimento. Algum tempo depois, ao ganhar um iPad de sua avó, produziu a
primeira tira de Pato Gigante e nunca mais parou. Desde então, os personagens
passaram a acompanhá-lo sempre.
Embora a estrutura de publicação no Instagram sugira episódios fragmentados, cada página, ou conjunto delas funciona como um recorte de algo maior. Aos poucos, uma narrativa consistente se forma, especialmente no que diz respeito às relações de Letícia. Não há pressa em explicar quem é quem ou em situar o leitor. O foco está nas dinâmicas entre os personagens. É na convivência, nos diálogos e nas entrelinhas que tudo se constrói.
Com o tempo, nomes e vínculos vão se encaixando
naturalmente. Isa, por exemplo, melhor amiga de Letícia, surge desde o início
como alguém apaixonada por ela, estabelecendo uma camada emocional importante
para a história. Em outro momento, conhecemos Dani, um garoto excêntrico que
solta um exagerado “Miaaauuu” como se fosse irresistível e é justamente esse
tipo de detalhe que dá leveza e autenticidade ao universo criado por Dantas. Há
também outros personagens que carregam suas
próprias complexidades, como um amigo que enfrenta uma relação difícil e
violenta com o pai.
A narrativa avança em um constante vai e vem de encontros e experiências,
onde sentimentos se transformam, se intensificam ou simplesmente se dissolvem.
É nesse movimento que percebemos o amadurecimento dos personagens. Esse arco
emocional encontra um ponto alto na despedida do Pato Gigante.
Dantas não deixa de explicar a origem do Pato. Que ele foi um presente da avó de Letícia, criado desde pequeno até atingir proporções… gigantes. Mas chega o momento em que ele decide partir, conhecer o mundo e viver novas experiências. A cena de despedida é um dos momentos mais tocantes da HQ e sintetiza um de seus principais temas: amar também é saber deixar ir. Isso não significa o fim do afeto, apenas sua transformação. A amizade permanece, mesmo que os caminhos sigam separados.
Visualmente, o traço de Gabriel Dantas pode ser, à primeira
vista, rotulado como simples ou até juvenil por olhares mais apressados. Mas a
sensibilidade de seu estilo é, na verdade, perfeito para a proposta da obra,
permitindo que a emoção e a sutileza das relações ganhem protagonismo. Há uma
maturidade narrativa impressionante por trás da aparente simplicidade dos
desenhos, algo que poucos autores conseguem equilibrar com tanta naturalidade.
Pato Gigante também se destaca por abordar temas que ainda
geram resistência em certos públicos, como questões de gênero, identidade e
sexualidade. O mérito de Gabriel está justamente na forma como trata esses
assuntos: sem didatismo excessivo, sem alarde, sem transformá-los em
“problemas”. Eles simplesmente fazem parte da vida dos personagens, como devem
ser. Essa abordagem contribui para ampliar perspectivas e reforça a importância
de tratar tais temas com naturalidade.
Pato Gigante se firma como uma HQ importante não apenas pelo
que conta, mas pela forma como conta. É uma obra que convida à empatia, à
escuta e à compreensão, qualidades cada vez mais necessárias. Gabriel Dantas
não oferece respostas fáceis, mas entrega algo talvez mais valioso: a sensação
de que não estamos sozinhos ao tentar entender o que sentimos.
2) Voa para qualquer lugar do universo;
A relação de Gabriel com os quadrinhos vem de muito cedo. Em
entrevistas, ele conta que sua obsessão pelos quadrinhos começou aos quatro
anos, quando teve contato com as histórias da Maurício de Sousa, especialmente com
a personagem Magali. A partir daí, passou a criar suas próprias histórias,
muitas vezes em versões artesanais, dobrando e grampeando papéis.
Diferentemente de muitos artistas que começam reproduzindo personagens
conhecidos, Dantas desde o início investiu em criações autorais, construindo
uma identidade própria.
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| Gabriel Dantas. Imagem @ugra_press |
Sua profissionalização começou cedo, aos 13 anos em Natal (RN), onde mora. Dantas frequentava um curso de inglês e viu uma loja de quadrinhos abrir ao lado da escola, um acontecimento que mudaria seu percurso. O espaço rapidamente se tornou seu refúgio e principal ponto de socialização, a ponto de trocar as aulas pelo convívio com outros artistas. Foi ali que se inseriu na cena independente potiguar, formando parcerias e fortalecendo sua presença no meio.
Ao longo da carreira, participou de diversas coletâneas,
como na Revista Pé de Cabra, El Perro Feo, Café Espacial e a coleção Ugrito.
Também construiu uma sólida produção autoral, com títulos como Eu não preciso
de mais nada (2021), Insustentável Vida das Abelhas (2022), Tudo que eu fiz
sozinho eu fiz errado (2023), Meu Gato de Tapa Olho (2024) e Abandonado por
Elena (2024). Em 2025, reuniu parte de suas tiras na coletânea Bife de
Unicórnio: Só o Filé, publicada pela Comix Zone.


















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