Mecânica Celeste: Muito além de um jogo de queimada disputando a liberdade

Leonardo Fraga
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Em Mecânica Celeste, a premissa chama atenção logo de cara: um mundo pós-apocalíptico onde o destino de territórios inteiros pode ser decidido numa partida de queimada. Sim, é isso mesmo. Mas parar por aí seria reduzir demais o que a HQ realmente entrega. Por trás dessa ideia inusitada, a narrativa mergulha em temas como sobrevivência, relações humanas, estruturas de poder e o peso das decisões coletivas em um cenário onde tudo está em jogo.




Publicada originalmente pela editora francesa Dargaud, a obra é assinada por Merwan Chabane, que cuida de tudo: roteiro, arte e cores ao longo de mais de 200 páginas. Lançada no Brasil pela Comix Zone, com tradução de Fernando Paz, a HQ levou cerca de cinco anos para ficar pronta, sendo dois deles de produção intensa. E isso se reflete na densidade da história. Segundo o próprio autor, a ideia nasceu de uma inquietação bem contemporânea: aquela sensação constante de apreensão diante do futuro.




Só que, ao contrário de muitas histórias do gênero pós-apocalíptico, Mecânica Celeste não segue pelo caminho mais sombrio ou desesperador. Merwan opta por uma história com humor, energia e até certa leveza. Existe um distanciamento irônico ali, como se o autor observasse esse futuro com um misto de crítica e brincadeira. O resultado é um mundo que ainda é a Terra, mas tão transformado que parece quase irreconhecível.




A história começa com a fuga de Juba, perseguido por não ter pago um pedágio de passagem em uma fronteira, o que já deixa claro que estamos diante de um mundo regido por regras duras e, muitas vezes, violentas. Esse cenário logo se expande para Pan, uma região em ruínas onde a natureza está retomando seu espaço. Prédios abandonados, veículos largados e vegetação tomando conta de tudo criam uma ambientação bem típica do pós-apocalipse, mas com personalidade própria.



Merwan situa a narrativa em 2068, usando como base a região da Floresta de Fontainebleau, em Paris. Locais reais, como o Château de Fontainebleau e antigas centrais nucleares, aparecem reinventados dentro desse novo contexto. A inspiração vem, segundo o autor, de visitas a amigos em áreas mais afastadas, lugares que funcionavam como refúgio da correria do mundo moderno.



Château de Fontainebleau 


É nesse cenário que conhecemos Aster, a protagonista. Ela vive em uma casa construída nas árvores e tem uma relação próxima com Wallace, com quem divide tanto a rotina quanto boa parte do desenvolvimento emocional da trama. Logo no início, acompanhamos eles andando pelo território tentando sobreviver em um ambiente moldado pelas consequências da guerra.




Aqui, a escassez dita o ritmo da vida. Os personagens precisam sair constantemente em busca de recursos básicos, comida, materiais e itens essenciais como iodo (para evitar os efeitos da radiação) ou até balas de canhão, usadas como moeda de troca por energia elétrica. Nesse contexto, os laços entre os personagens vão se aprofundando. O que começa como amizade evolui aos poucos, ganhando camadas mais complexas à medida que o passado de cada um começa a interferir nas escolhas do presente.




Paralelamente à história de Aster e Wallace, a HQ constrói o retrato de uma comunidade tentando se organizar em meio ao caos. O povoado onde vivem é liderado por Eddy, uma figura de autoridade constantemente pressionada por decisões difíceis, daquelas que não afetam só indivíduos, mas todo mundo ao redor. Liderar, aqui, não tem nada de glamouroso: é um fardo pesado, cheio de escolhas irreversíveis.




Eddy é pai de Wallace, Juba e Fetta, que trabalha com a mãe no posto de trocas da comunidade. Esse núcleo familiar tem um papel central na trama e acaba influenciando diretamente o rumo da história, especialmente quando Aster começa a assumir um protagonismo cada vez maior. Ela, aliás, é uma estrangeira, alguém que vive à margem daquele grupo. Foi encontrada ainda bebê por Eddy, em um cesto à deriva no rio, uma clara referência à história bíblica de Moisés.




Em determinado momento, a HQ traz uma reflexão interessante: Eddy compara a formação dos metais com a construção das sociedades humanas. A ideia é simples, mas potente: grandes pressões podem gerar estruturas fortes, enquanto a acomodação leva à fragilidade. A fala quase entrega o que vem pela frente, mas, mais do que isso, funciona como um comentário direto sobre como é preciso uma ruptura, até uma revolução para fortalecer uma sociedade.




Claro que não faltam ameaças externas. Grupos invasores, piratas, que surgem como antagonistas interessados nos poucos recursos disponíveis. Mas também a chegada de uma comunidade vizinha que está se expandindo populacional e tecnologicamente, chamada Fortuna. É então que o conflito ganha uma dimensão ainda maior quando entra em cena o elemento mais original da HQ: a tal da “Mecânica Celeste”.




Mais do que um jogo, trata-se de uma tradição que carrega um peso político enorme. Quando tudo parece perdido, é a ela que as sociedades em disputa recorrem. O destino de um povo inteiro passa a depender de uma disputa.

O jogo segue regras bem conhecidas basicamente, uma versão de queimada. Dois times com sete jogadores (os chamados paladinos) se enfrentam em diferentes arenas. O objetivo é eliminar os adversários com uma bola ou “orbe” e vencer uma melhor de três. Simples na teoria, mas com consequências gigantescas: se Pan vencer, conquista sua liberdade, se perder, terá que ceder metade de sua produção, o que, na prática, significa sua ruína.




O título da obra ganha ainda mais sentido aqui. “Mecânica celeste” é o ramo da ciência que estuda o movimento dos corpos no espaço, planetas, luas, estrelas e tem na gravidade um de seus pilares. Merwan usa esse conceito de forma criativa dentro do jogo, explorando movimento, peso e trajetória tanto nas ações dos personagens quanto na construção visual das cenas.




Aster, em especial, se destaca nesse aspecto. Seu jeito de jogar é quase intuitivo, explorando o próprio corpo, a elasticidade e até a bola como forma de defesa. Mesmo sem experiência, ela se adapta rapidamente e chama atenção, tanto dos personagens quanto de quem acompanha a partida dentro da própria história. Aos poucos, ela se consolida como o coração emocional da narrativa.




Seu passado, revelado gradualmente, ajuda a explicar por que ela é vista de forma diferente. E sua jornada coloca em destaque um conflito forte entre pertencimento e identidade. Juba também tem seu papel importante, ainda que funcione um pouco como um recurso narrativo para explicar as regras do jogo e conectar Pan com o mundo exterior. Sua busca por reconhecimento, especialmente do pai e do antigo time acaba influenciando suas atitudes dentro e fora das partidas.



Fetta é outra personagem bem trabalhada, movida inicialmente por ciúmes de Aster, o que mostra como, mesmo diante de algo tão sério, motivações pessoais continuam pesando. Wallace que à princípio quer ficar na sua, vai sendo arrastado pela trama. Uma espécie de mini jornada do herói que culmina com ele e Aster tento que decidir a partida.

A HQ trabalha muito bem essas tensões, mostrando como vitórias e derrotas tem impactos profundos. Num mundo onde recursos são escassos e confiança é rara, saber em quem acreditar vira uma questão central.



É verdade que, em alguns momentos, a estrutura da competição pode parecer previsível, especialmente para quem já está acostumado com histórias esportivas. Mas isso não chega a ser um problema. A força da obra está na construção dos personagens, no impacto emocional, especialmente durante as partidas da Mecânica e, principalmente, no visual impressionante.




Merwan comentou que um dos maiores desafios foi fechar a história. O final precisava amarrar tudo, conflito, identidade, transformação e isso se traduz também visualmente, com um jogo de escalas entre acontecimentos pequenos e grandiosos. A ideia é clara: até os menores gestos podem ter impactos enormes.




Mecânica Celeste é uma obra sobre reconstrução, do mundo, das relações e da forma como olhamos para o futuro. Em vez de se render ao medo, ela propõe se jogar de cabeça na mudança. E faz isso de um jeito criativo, humano e cheio de personalidade.



A capa faz uma referência à famosa obra francesa do iluminismo “La Liberté guidant le peuple” (A Liberdade guiando o povo) 1830, de Eugène Delacroix. A liberdade na história é conquistada através da bola, ou melhor, da Mecânica Celeste.



Continuação:

 

Mecânica Celeste foi lançada originalmente em 2019, e cinco anos depois Merwan lançou uma continuação que promete expandir a história. “Aster of Pan: The Source”. Merwan continua a jornada da protagonista e aprofunda a construção do mundo. A história começa poucos dias após os acontecimentos do primeiro volume, onde acompanhamos Aster e seu grupo retornando a Pan.



No caminho eles encontram uma pequena comunidade, conhecida como “A Fonte” (The Source), responsável por preservar fragmentos de conhecimento do mundo anterior ao colapso. Fortuna continua sendo a grande vilã, e agora está em busca de um disquete que pode conter implicações políticas enormes para toda a região. O conflito continua e ganha novas camadas.

Entre os novos elementos da trama, o autor destaca o uso de armas baseadas em ondas cerebrais pela Federação de Fortuna, mas aponta que o verdadeiro tema central é mais íntimo: a paternidade.




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