A cena de quadrinhos independentes em Santa Catarina ganhou um novo título este mês com o lançamento de Sangria #01, publicação do coletivo Cultural Sangria junto ao selo Ink Bhang e apoio cultural do jornal O Marginal. A revista reúne cinco histórias em 46 páginas e ainda traz uma entrevista com o editor Carlos Panhoca, da Editora Pé de Cabra.
Mais do que apenas uma coletânea de histórias, a revista
chama atenção por revelar uma movimentação criativa que acontece fora dos
grandes centros editoriais. Em Tubarão, no sul do estado, onde artistas locais se
organizam para produzir e publicar seus próprios quadrinhos. E como afirma o
editorial da publicação: a Sangria foi desatada.
Um espírito assumidamente underground
A proposta estética e narrativa da revista dialoga
diretamente com o espírito dos quadrinhos underground que ganharam força nos
anos 1960, especialmente com artistas como Robert Crumb. Isso significa
histórias que não se preocupam em seguir padrões do mercado ou agradar um
público amplo.
Sangria aposta na liberdade criativa, reunindo histórias que
exploram temas provocativos, questionam comportamentos sociais e não hesitam em
cutucar valores conservadores. Apesar da capa trazer uma versão de boteco do Pato Donald em uma animada disputa de braço de
ferro, a revista é claramente voltada para o público adulto. É um espaço em que
os autores podem experimentar à vontade, seja na linguagem, na construção das
narrativas ou nas escolhas visuais, sem a preocupação de seguir fórmulas ou
agradar expectativas do mercado.
Iconoclastia em plena Tubarão
A primeira história da edição é “Iconoclastia nossa de cada
dia”, de Idezio Júnior. Logo no primeiro quadro surge uma referência bastante
local: a Avenida Marcolino Martins Cabral, com seu característico canteiro
central. Uma das principais vias da cidade de Tubarão, vazia, suja e
vandalizada.
O protagonista percorre a cidade em sua moto carregando uma
bolsa cheia de coquetéis molotov. Seu alvo são instituições que, na visão do
personagem, exercem grande influência sobre a sociedade: banco, televisão,
igreja, sede de partido político e até o Shopping Twin Pines, uma referência à
série Twin Peaks.
A narrativa mistura crítica social e provocação,
encerrando-se com uma reflexão após uma cena de sexo. Visualmente, Idezio se
destaca na construção dos personagens e no uso de iluminação e sombras para
criar atmosferas marcantes. A história também dialoga com o olhar crítico e
social que o artista já desenvolve em sua carreira.
Tecnologia, solidão e dependência digital
Na segunda história, o editor Luiz Simonetti (assinando como
Tio Luiz) apresenta uma crítica à dependência crescente da sociedade em relação
às inteligências artificiais.
O protagonista vive em um pequeno cubículo onde quarto, cozinha e banheiro dividem o mesmo espaço. Durante toda a narrativa ele interage com Alexia, uma assistente virtual inspirada na Alexa da Amazon, que o chama constantemente de “querido”. Tem algo mais falso que isso?
A situação expõe um cenário de solidão e dependência
tecnológica. Simonetti constrói uma reflexão sobre um futuro em que as pessoas
parecem ter perdido o propósito, delegando até as tarefas mais básicas, como as
próprias necessidades fisiológicas às grandes corporações de tecnologia.
O desenho apresenta traços expressivos e criativos, o mais
underground da edição. O único ponto que pode dificultar a leitura em alguns
momentos é o letreiramento, que se torna um pouco confuso devido à grande
quantidade de texto, algo comum em produções autorais em que o próprio artista
assume todas as etapas do processo.
Humor e ansiedade na pele de um Lobo
Simonetti também assina a última história da revista, “Lobo sem Estepe”, que traz uma abordagem bem-humorada sobre insegurança e ansiedade.
Na trama, um lobo trabalha em uma empresa e simplesmente vai até o bebedouro pegar água. A situação muda completamente quando uma colega, uma bela mulher, o convida para sair depois do expediente. A partir daí o personagem entra em um turbilhão de pensamentos e dúvidas sobre como reagir.
A história combina humor e suspense, culminando em uma
reviravolta divertida que fecha muito bem a narrativa. Entre todas as histórias
da revista, é uma das mais leves e carismáticas.
Simonetti já tem experiência na cena independente, onde publicou revistas como Quark e Shanduella de Mortandiche, além de colaborar
com títulos como El Perro Feo, da Escória Comix, e Parafilia Assassina, da
Editora Pé de Cabra.
Um dos momentos mais experimentais da revista aparece em “Efemérida”, de Álvaro Gonçalves, conhecido como Hams. A narrativa acompanha um compositor decidido a finalizar uma música. Durante o processo criativo, um pequeno inseto voador, a efemérida, passa a interferir no ambiente e atrapalhar sua concentração.
A partir dessa situação simples, Hams constrói uma história
visualmente sofisticada. O artista explora intensamente o contraste entre preto
e branco, além de brincar com enquadramentos, sombras, movimento e ritmo
narrativo.
A efemérida, conhecida por ter uma vida extremamente curta,
funciona como metáfora para a própria existência humana. O tema da brevidade da
vida ganha força quando a Morte surge na narrativa, criando uma reflexão
poética sobre o tempo e a fragilidade da existência.
A arte de Hams é especialmente impactante pelo domínio do contraste visual. Além de publicar trabalhos em suas redes sociais, o artista também lançou o zine Masmorra, outra obra que vale a pena conferir
Obsessão pelo Batman
Por fim, JB Guedes apresenta “O dia em que matei o Batman”.
A história acompanha um homem completamente obcecado por um quadrinho do Batman.
Ele a lê em casa, na ida ao trabalho e enquanto trabalha.
A obsessão chega a tal ponto que ele ignora completamente
suas obrigações profissionais, sendo confrontado e posteriormente demitido pelo
seu chefe. Mesmo assim, o personagem permanece indiferente: o que realmente
importa para ele é continuar lendo a história do Batman.
Com uma carreira consolidada como chargista em Santa Catarina, JB Guedes é uma referência no estado. Ainda assim, dentro da proposta geral da revista, essa acaba sendo uma das histórias menos marcantes da edição.
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| Entrevista com Carlos Panhoca em Sangria #1 |
Fortalecendo a cena local de quadrinhos
A proposta do coletivo é incentivar a autonomia criativa e abrir espaço para que artistas locais publiquem suas próprias obras. Em um mercado ainda muito concentrado no eixo Rio–São Paulo, iniciativas como essa ajudam a ampliar a diversidade de vozes e estilos dentro dos quadrinhos brasileiros.
Apoiar e divulgar esse tipo de projeto é fundamental para
que a cena continue crescendo.
Para saber mais sobre a revista
ou adquirir um exemplar de Sangria #01, vale acompanhar as redes sociais do @coletivosangria_
ou entrar em contato pelos telefones:
(49) 99947-9825 (Luiz Simonetti)
(48) 98818-3746 (Idezio Jr)
A edição também está disponível
na Casa Aurora, em Laguna. @casaauroracollab
Para acompanhar os artistas desta
primeira edição, siga:


















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