Dylan Dog – Três vezes Zero: caos e a genialidade de Tiziano Sclavi

Leonardo Fraga
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Republicada na 10ª edição da coleção O Dylan Dog de Tiziano Sclavi, com arte de Bruno Brindisi e roteiro de Tiziano Sclavi, esta história costuma ser apontada por muitos leitores como uma das narrativas mais brilhantes já protagonizadas pelo Investigador do Pesadelo. A capa de Gigi Cavenago condensa muito bem o clima desta história invernal. As cores são do GFB Comics e Luca Bertelè em estilo vintage, incluindo as páginas amareladas da edição.

Inédita no Brasil, “Três Vezes Zero” foi publicada originalmente em Dylan Dog #125, na Itália. A trama demonstra um controle narrativo impressionante de Sclavi, a partir de uma premissa aparentemente simples, mas carregada de implicações filosóficas ou matemáticas: por que três vezes zero é zero, enquanto três dividido por zero leva ao infinito?



Três vezes Umbigos do Mundo


A história começa na pequena cidade de Bellybutton ou “Umbigo do Mundo”, uma piada de Sclavi logo de cara. A partir de um acontecimento banal, o roteiro constrói uma cadeia de eventos absurdamente desproporcional. Uma geladeira volta a funcionar, então seu dono cancela a compra de uma nova em uma loja da cidade. 

O proprietário da loja decide vender suas ações investidas na empresa Turkey Insurance (“Seguros Peru”, outra piada que vai se encaixar perfeitamente mais pra frente) e, a partir daí, espalha-se o boato de que a companhia está falindo. O resultado é um efeito dominó que derruba o valor das ações da bolsa e acaba mergulhando a Inglaterra em recessão econômica. Tudo isso acontece nas três primeiras páginas, estabelecendo o tom de humor surreal e crítica social que percorre toda a narrativa.



Com a crise econômica instaurada, Dylan e Groucho se veem obrigados a aceitar qualquer trabalho que apareça. A dupla abandona temporariamente a caça a monstros e fantasmas para viajar até Bellybutton e fazer uma entrega de um objeto a um destinatário específico. “Sem fantasmas, sem monstros. Sem emoções. Apenas entregar o pacote e receber o pagamento para pagar as contas”, comenta Dylan.



Graças a isso entra em cena Groucho, afiado e implacável ao criticar a ordem mundial, mas ao mesmo tempo extremamente engraçado. Aliás, a história está cheia de situações e diálogos bem-humorados, o que ajuda a impulsionar a narrativa e a criar uma atmosfera muito agradável.



O elemento que desencadeia o caos na cidade é o experimento do professor Knock. Obcecado com a equação “três vezes zero”, ele percebe algo inquietante: matematicamente, o resultado deveria ser zero, mas o universo parece discordar. Em sua interpretação, três vezes zero não é zero, mas três. Quando as leis matemáticas deixam de coincidir com as leis do cosmos, surgem fissuras na realidade.



Para sustentar essa ideia, Sclavi recorre a uma referência filosófica ao pensamento de Lao T’sé, que diz: “O Tao criou o um, o um criou o dois, o dois criou o três, e o três criou todos os seres”. A escolha do número três não é acidental. Dentro da lógica da história, ele representa a chave que abre três portas para o infinito que desencadeiam eventos bizarros em Bellybutton.



O Peru, o Roubo e o Investigador



Sclavi constrói uma narrativa fragmentada, formada por várias tramas paralelas que se entrelaçam lentamente. Cada uma delas apresenta personagens excêntricos e memoráveis, características típicas do universo de Dylan Dog. Um dos exemplos é Amos, um idoso com mais de cem anos que está à beira da morte, mas subitamente recupera a saúde e volta a circular pela cidade como se tivesse rejuvenescido.



O trio de ladrões Eugene, Will e Past, responsáveis por um roubo de diamantes em que apenas um deles acaba preso: Past. Ele passa dezoito anos na cadeia a espera do momento da vingança. A cena em que ele pega carona até Bellybutton após deixar a prisão é antológica. A avó de Eugene, uma senhora já meio senil que acredita que seu marido, congelado no freezer, está esperando que descubram a cura para o câncer. À primeira vista, ela parece um personagem irrelevante, mas se torna peça fundamental para conectar os diversos fios narrativos da história. Há ainda Verna e Bert, que enfrentam enormes dificuldades para capturar um peru. Atenção ao Peru!




 Sclavi e seu fascínio pela Morte e Universo

 

Visualmente, o trabalho de Bruno Brindisi contribui decisivamente para o impacto da história. O artista constrói uma Bellybutton fria, coberta de neve e envolta por uma atmosfera melancólica. Sua caracterização dos personagens é rica em detalhes, com pequenas particularidades que tornam cada figura única. As páginas são densas, repletas de objetos, cenários e elementos visuais que ampliam a sensação de realismo e ajudam a sustentar o clima de estranhamento que domina a narrativa.




Em determinado momento, Sclavi acrescenta ainda outra camada conceitual ao enredo ao introduzir uma reflexão sobre a morte. A história sugere que não existe apenas uma única entidade responsável por ela, mas diversas “Mortes”, organizadas por setores e até por níveis hierárquicos. O detalhe curioso é que, justamente no setor correspondente à cidade de Bellybutton, a responsável pela função estaria de férias, um detalhe que ajuda a explicar parte das anomalias que estão ocorrendo ali.





A narrativa também incorpora uma referência científica histórica à teoria apresentada em 1611 pelo astrônomo e matemático Johannes Kepler. Em seus estudos, Kepler explicou por que flocos de neve não podem ser idênticos entre si, já que sua formação depende de inúmeras variáveis físicas e ambientais. No universo da história de Sclavi, no entanto, algo parece ter se alterado: os flocos de neve que caem sobre Bellybutton são todos iguais. Esse detalhe aparentemente simples torna-se a pista definitiva para o professor Knock perceber que seu experimento alterou o equilíbrio do universo.


Brindisi aqui se inspira nas feições de Telly Savalas para compor Past.

Telly Savalas como o perturbado Maggot em Os Doze Condenados (1967)


E Dylan e a matemática do Umbigo do Mundo?




Dylan, por sua vez, aparece aqui mais como um observador passivo, envolvido em uma história que ele acredita não ter absolutamente nada de sobrenatural. Sclavi claramente está se divertindo. Ele brinca com a construção da narrativa ao entrelaçar pequenas situações aparentemente insignificantes e comentários lançados quase por acaso. Um exemplo: ao sair da prisão, Past comenta “Dá para ver que a Morte está de férias”. Na primeira leitura, essa frase passa despercebida. Mais tarde, porém, fica claro que Sclavi estava nos dando uma dica para a solução de um dos enigmas da história. 



A aventura de Dylan Dog em Bellybutton mostra como o autor consegue transformar ideias surreais em uma trama envolvente, cheia de personagens excêntricos e situações inesperadas, mantendo sempre o equilíbrio entre reflexão e entretenimento.



Sclavi constrói uma história que exemplifica perfeitamente o potencial criativo da série e o final está à altura do desenrolar da trama. A conclusão é brilhante: todas as peças do quebra-cabeça finalmente se encaixam em um conjunto coerente, e o leitor fica com aquele meio sorriso involuntário no rosto, uma reação que costuma despertar olhares curiosos de quem está por perto, intrigado com o efeito que uma simples história em quadrinhos pode provocar.





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