Não Chame de Mistério #1: o mangá que reinventa o gênero policial

Leonardo Fraga
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Poucos elementos da cultura pop atravessaram tantos séculos com tanta força quanto o clássico “Quem matou?”. O romance policial, desde Sherlock Holmes e Hercule Poirot até o mais recente “Knives Out” com Benoit Blanc, sempre oferecem ao público uma experiência irresistível: a sensação de desvendar um quebra-cabeça antes mesmo do detetive da história.

Existe um prazer quase universal em acompanhar pistas, suspeitos e reviravoltas. Mesmo quando o leitor não consegue prever o final, há conforto em saber que, no fim, a verdade virá à tona e a justiça será feita. Assim como acontece com o romance, o gênero mistério carrega essa promessa de ordem: em um mundo caótico, a ficção oferece lógica.



Mas esse amor pelo mistério não é exclusividade do Ocidente. No Japão, o gênero policial possui uma tradição riquíssima, marcada pelo conceito de honkaku (“autêntico”), um subgênero da ficção policial japonesa que segue regras rígidas: pistas claras, crimes solucionáveis e uma estrutura quase matemática.

Foi nesse terreno que surgiram autores como Edogawa Ranpo e obras que consolidaram o Japão como um dos grandes centros da narrativa investigativa.

No entanto, nem toda história recente segue esse caminho.

 


O fenômeno “Não chame de Mistério”

Um dos maiores sucessos contemporâneos do mangá japonês é “Não Chame de Mistério” (Mystery to Iunakare), de Yumi Tamura. Publicada desde 2017, a série virou um fenômeno cultural, vendeu milhões de cópias, ganhou prêmios e ainda inspirou adaptações para TV e cinema.

No Brasil, está sendo publicada pela Editora JBC desde 2024 e já chegou ao sexto volume, no formato tradicional de mangá, com cerca de 192 páginas e tradução de Amanda Diniz.  Na primeira edição acompanhamos dois casos, o primeiro de um assassinato que se conclui neste mesmo volume e o segundo de um sequestro de ônibus que conclui no volume seguinte.




A premissa parece bem clássica: Totono, um universitário excêntrico, de cabelo crespo enorme e amor declarado por curry, acaba acusado de assassinato depois da morte de um colega. Interrogado pela polícia, ele precisa usar inteligência e observação para não ser condenado injustamente.

Até aí, tudo soa como um mistério tradicional. Mas Tamura insiste: não é bem assim.



O diferencial está no foco. Totono não é um detetive, nem alguém que busca crimes por adrenalina ou vocação. Ele é só um jovem comum, arrastado para situações extremas quase por acaso e, principalmente, por curiosidade humana.

E o mais importante: a autora não está interessada no jogo clássico do “Quem matou?”. As pistas não são distribuídas como num quebra-cabeça justo. O leitor não é convidado a competir com o investigador. Muitas vezes, a solução aparece só no final, sem aquele mecanismo racional típico do honkaku.



O verdadeiro centro da narrativa não é descobrir “quem matou”, mas refletir sobre o que o crime revela: machismo, solidão, injustiça social, fragilidade emocional. Em vez de um romance policial, o mangá se aproxima de um drama psicológico e filosófico, onde assassinatos funcionam como gatilhos para discussões sobre o cotidiano.



Totono tem uma inteligência brilhante e observa as pessoas, conseguindo enxergar além delas. Na primeira história, enquanto presta depoimento para a Polícia, acaba criando um vínculo com um dos policiais, o ajudando a resolver problemas no casamento. Esses momentos aparentemente banais são essenciais para entender o tipo de pessoa que é Totono, muito peculiar e muito humana.



Uma das características mais marcantes da série é o modo como ela interrompe a investigação para abrir espaço a discussões inesperadas. Há capítulos dedicados a conversas longas sobre ética, convivência, envelhecimento e até filosofia clássica, como quando a obra cita Marco Aurélio e suas meditações.

Esses momentos são o coração do mangá. Tamura não quer apenas que o leitor descubra “quem matou”. Ela quer que o leitor pense sobre o que leva alguém a matar e sobre o que a sociedade faz com vítimas e culpados.



Não é mencionado, mas percebemos que Totono é um personagem “neurodivergente” em sua forma de observar o mundo: analítico, introspectivo, honesto demais. E talvez seja justamente isso que o torna tão envolvente. Ele é constantemente puxado para situações estranhas e perigosas, sem entender exatamente por quê e sua relutância em participar só aumenta o fascínio do leitor.

 

Verdade, realidade e múltiplas perspectivas


Um dos temas mais fortes da obra é a ideia de que não existe apenas uma verdade. Cada personagem carrega sua própria perspectiva, e Totono frequentemente desafia a mentalidade policial de que “há apenas uma explicação correta”. Mesmo quando um culpado é revelado, o caso não se encerra de forma limpa. O impacto emocional permanece. Não há celebração, apenas consequências humanas.



“Não Chame de Mistério” pode não ser um mistério “puro”, mas é exatamente essa ruptura que o torna tão poderoso. Tamura usa a estrutura do suspense para conduzir o leitor não a uma solução lógica, mas a um mergulho na complexidade moral das pessoas.

A maioria dos casos é mostrado, explicado e resolvido apenas com as conversas entre Totono e os policiais. Não há grandes operações ou ação, na verdade não há ação alguma. É uma leitura densa que precisamos ficar atentos, mas muito recompensadora.



A série evita spoilers e reviravoltas fáceis, preferindo construir uma tensão gradual, onde o mistério importa tanto quanto o impacto humano ao redor dele. O leitor se vê investido não apenas na solução do crime, mas no futuro emocional dos envolvidos.

“Não Chame de Mistério” desafia visões de mundo, provoca reflexão e entrega um suspense psicológico sofisticado, raro dentro do gênero.



 Arte elegante e identidade única


Visualmente, o mangá também impressiona. A arte aposta em enquadramentos que valorizam expressões e silêncios tanto quanto os diálogos. Muitos quadros carregam peso justamente porque transformam conversa em tensão.

O estilo da Tamura não é chamativo no sentido tradicional. Não é um mangá de explosões visuais ou exageros gráficos. Pelo contrário: o desenho é sóbrio, econômico, mas isso não é simplicidade, é controle.



O traço quer nos dizer que o mistério não está no que acontece… está no que as pessoas escondem enquanto falam. As expressões faciais são peça chave da narrativa. Isso fortalece especialmente Totono. Ele raramente muda drasticamente de emoção, mas Tamura faz pequenas variações no olhar, na boca, na postura…

Isso cria uma sensação constante de que ele está pensando mais do que falando.

E os personagens ao redor ganham rostos que oscilam entre simpatia, desconforto, agressividade, culpa e medo. Tamura também explora os cenários, como enquadramentos de cinema. Com closes demorados nos rostos, cortes secos nas reações e planos abertos que deixam o personagem “pequeno” no espaço. Isso reforça o clima da série: não é um suspense de perseguição, é um suspense de observação.



“Não Chame de Mistério” é um mangá de conversas… que nunca parece parado. É uma mistura de Slice of Life com Agatha Christie, com tramas muito bem construídas sem deixar de falar do cotidiano dos personagens.

E aquele cabelo do Totono? Só reforça o jeito “fora de padrão” de heróis de mangá. Ressaltando que ele é alguém que observa o mundo de outra forma, ocupando espaços como alguém que pensa mais que os outros.

Uma carreira construída no shoujo dos anos 80 e 90

Tamura estreou profissionalmente ainda jovem, em um período em que o mangá shoujo (voltada para o público feminino entre 12 a 18 anos) passava por transformações importantes. Nos anos 80 e 90, autoras começaram a expandir os temas tradicionais do romance adolescente, introduzindo histórias mais densas, sociais e experimentais.

Desde o início, Tamura se destacou por fugir do sentimentalismo fácil. Seus trabalhos sempre tiveram um interesse particular em dilemas morais, relações humanas ambíguas, tensão psicológica e protagonistas fora do padrão. Ela rapidamente conquistou espaço em revistas importantes, tornando-se parte de uma geração que redefiniu o mangá voltado ao público feminino.



Seu maior sucesso antes de “Não Chame de Mistério” foi Basara (1990–1998), um épico pós-apocalíptico que se tornou cultuado como uma das obras mais importantes do shoujo/josei (josei é voltado para mulheres adultas entre 20 e 30 anos). Basara misturava aventura, política, distopia e identidade em uma narrativa grandiosa, com uma protagonista feminina forte e conflitos existenciais profundos.

Vídeo de Tamura para o DVD de Basara.


Ao longo da carreira, Tamura sempre demonstrou interesse em como indivíduos comuns reagem sob pressão social. Suas histórias não são apenas entretenimento, elas funcionam como estudos de comportamento. Essa abordagem é essencial para entender por que “Não Chame de Mistério” é tão singular. Ele não trata crimes como enigmas, mas como sintomas de um mundo disfuncional.

O protagonista Totono é quase um porta-voz da autora. Um personagem que observa o mundo com estranhamento e questiona aquilo que todos aceitam como normal. O resultado é uma obra que se encaixa no mistério, mas transcende o gênero. Tamura passou a ser vista não apenas como uma veterana consagrada, mas como uma autora ainda capaz de reinventar formatos narrativos e dialogar com questões contemporâneas.




 Mistério familiar e drama emocional

Os volumes mais recentes mergulham em uma trama marcada por um drama familiar intenso, centrado na morte dos pais de um grupo de personagens e nas consequências emocionais e sociais desse acontecimento. Esta trama foi levada aos cinemas em 2023 em um live-action, com Masaki Suda (Gintama, 2017) como Totono. É um filme muito bom que capta perfeitamente a atmosfera do mangá. Em 2021, Suda também protagonizou uma série live-action com 12 episódios.

 

 Trailer do Filme "Não Chame de Mistério (2023)



 

 

 

 

 

 

 

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