O fim do mundo chegou. Simples assim. Um ser gigantesco, impossível de descrever, desce sobre a Terra, espalha seus tentáculos sobre a humanidade e faz todo mundo se curvar diante dele. No meio das ruínas, com tudo desmoronando, Dylan Dog continua escrevendo, como se manter um diário fosse o último jeito de dar algum sentido ao caos.
Essa é a premissa de “O Fim da Escuridão” (La fine dell’oscurità, Dylan Dog #374), uma das histórias mais estranhas, inquietantes e cheia de simbolismos da fase recente do personagem. Escrita por Mauro Uzzeo, desenhada por Marco Santucci e com capa de Luigi Cavenago, a HQ é uma experiência apocalíptica que vai muito além do horror tradicional. No fundo, ela é uma fábula filosófica sobre verdade, alienação e sobre como as redes sociais estão destruindo nossa capacidade de nos comunicar.
A história saiu no Brasil pela Editora Lorentz, em Dylan Dog
Nova Série #1, em uma edição dupla que traz também “A Chama”. Tradução irretocável de Paulo Guanaes.
Uma estreia autoral marcante
“O Fim da Escuridão” é a primeira história de Mauro Uzzeo na
série regular e ele já chega mostrando que não está interessado no básico. Aqui
não há uma narrativa simples, linear, com começo-meio-fim. Uzzeo prefere
algo mais simbólico, quase como um quebra-cabeça que o leitor precisa montar.
O terror não está só no monstro colossal no céu, mas no que ele representa. Para Uzzeo, o apocalipse é também o colapso da comunicação. Logo no início, ele dispara uma frase devastadora: “Quando o apocalipse chegou, ninguém levou a sério.”
E isso remete diretamente ao nosso presente. Vivemos conectados o tempo inteiro, mas cada vez mais incapazes de se entender. A internet, que deveria aproximar, virou ruído, divisão e agressão. Em tempos de fake news e pós-verdade, todo mundo tem sua “verdade pessoal” e quando todo mundo está certo, ninguém está.
Uzzeo contou em entrevista na Lucca Comics & Games que essa história nasceu três anos antes da publicação. Este período longo veio devido ao ritmo editorial lento da Sergio Bonelli Editore e do trabalho extremamente detalhado de Giorgio Santucci, que se dedicou muito em cada página.
O autor até achou que a HQ podia “chegar tarde demais”, já que o mundo digital muda rápido. Mas aconteceu o contrário: o tema ficou ainda mais relevante. Muitos, inclusive, associam o clima da história a algo como Black Mirror, mesmo que Uzzeo diga que não partiu dessa referência.
God: o deus que criamos
Um dos pontos mais fortes da HQ é a ideia de que criamos o
nosso próprio Deus moderno. As imagens de pessoas ligadas ao monstro por “cabos
mecânicos” são uma metáfora bem direta: nossa dependência das redes, da
informação infinita, das curtidas, dos algoritmos. Sem mencionar que é
impossível não lembrar de Matrix (1999), dos humanos ligados às máquinas por
cabos semelhantes.
O autor explica que esses cabos representam uma relação ambígua: ao mesmo tempo em que nos nutrimos dessa “verdade digital”, também somos guiados, manipulados e conduzidos por ela. A ideia era que os cabos não fossem superficiais, mas penetrassem fundo: “Na medula espinhal. No coração. Na alma”. A verdade contemporânea, sugere Uzzeo, não apenas informa, ela domina.
Desconectar-se é doloroso, quase uma heresia. E na história, essa ruptura é punida com morte. O horror é claro: o deus moderno não exige fé, exige acesso. A narrativa avança para um terreno ainda mais metalinguístico: e se o verdadeiro deus for o leitor?
A história sugere que Dylan, ao buscar a verdade, encontra um olho eterno observando do céu, como se percebesse que sua existência depende de quem o lê. O leitor dá vida, mas também aprisiona. Dylan Dog existe porque continua sendo consumido, publicado, relançado, revisitado. A consciência disso se torna insuportável.
Surge então um comentário ácido sobre a indústria cultural: personagens de sucesso não podem morrer. Dylan Dog está condenado à eternidade editorial. Franquias não acabam, só se repetem, se reinventam, se prolongam, mesmo que o personagem implore pelo fim.
Nesse sentido, “O Fim da Escuridão” também pode ser lida
como uma crítica às séries longas e ao peso de existir apenas porque é preciso
continuar existindo.
Arte visceral e atmosfera sufocante
A estreia de Marco Santucci na série regular é ótima. Seu
traço é sombrio, pesado, carregado de contrastes e de uma violência gráfica que
não alivia. O apocalipse aqui é corporal, brutal, desesperador. Crianças,
inocentes, ninguém é poupado. Santucci equilibra expressionismo e realismo
bonelliano, criando páginas dinâmicas e perturbadoras, em sintonia perfeita com
a proposta niilista do roteiro, que foge da realidade que a conhecemos.
A capa de Luigi Cavenago é um espetáculo à parte: um híbrido improvável entre Gustav Klimt e H.R. Giger. Há o dourado ornamental e a composição pictórica de Klimt, misturados ao horror biomecânico e à estranheza orgânica de Giger. O resultado é uma imagem de beleza fascinante e repulsiva, puro body horror em estado de arte.
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The Tree of
Life (1905), de Gustav Klimt |
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| Aleph (1973) por Hans Rudolph Giger |
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| La fine dell’oscurità (2017) por Gigi Cavenago |
Uzzeo, que também trabalha com cinema e televisão, destaca uma diferença essencial ao se fazer um quadrinho: “No audiovisual, tudo depende de orçamento. No quadrinho, não. Desenhar um beijo em um banco custa o mesmo que desenhar uma invasão alienígena ou uma apocalipse”. Em “No Fim da Escuridão ele quis justamente explorar o potencial ilimitado dos quadrinhos para criar imagens impossíveis ao cinema convencional.
Embora o autor negue que que trabalhe com citações diretas, algumas influências emergem naturalmente. Ele menciona atmosferas ligadas ao horror corporal de David Cronenberg (A Mosca – 1986, Videodrome – 1983), ao cinema extremo de Lucio Fulci (Zombie – 1979), e até mesmo ecos internos da própria mitologia de Dylan Dog (como ele ser um personagem, algo que já foi explorado algumas vezes).
O roteiro é tão cheio de camadas que até o nome do deus que
chega para o Juízo Final tem significado. “Aletheia”, palavra grega que
significa “Revelação” ou o ato de trazer algo à luz. É o nome da Deusa Grega da
Verdade.
Mas a referência mais surpreendente vem da música: Uzzeo associa “No Fim da Escuridão à canção “God”, de John Lennon. Na faixa, Lennon enumera tudo em que não acredita mais, até concluir: “Eu só acredito em mim.”
God - John Lennon/Plastic Ono Band (1970)
Uzzeo vê nisso o coração da história: um mundo onde não se acredita mais em nada e a única busca possível é encontrar um ponto firme em meio ao colapso. Aqui, esse ponto não é Deus. É a verdade.
Uma epílogo de esperança
No final, Dylan é salvo por sua namorada Hope (que significa
“esperança”). Ela sussurra algo que nunca ouvimos. É uma verdade apenas dele.
Talvez a promessa de que, apesar de tudo, ainda exista espaço para sentido, para
reinvenção, para criatividade dentro da série, e para a vida em si.
“O Fim da Escuridão” pode não agradar a todos, mas é impossível negar sua ousadia: uma HQ experimental, simbólica, inquietante e profundamente autoral. Mostra um Dylan Dog contemporâneo ao nosso tempo, sem precisar usar celular ou Google. Mesmo depois de centenas de edições, o Investigador do Pesadelo ainda pode surpreender e ainda pode dizer algo novo sobre o mundo em que vivemos.






















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