Dylan Dog Nova Série Lorentz #1: O Fim da Escuridão

Leonardo Fraga
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O fim do mundo chegou. Simples assim. Um ser gigantesco, impossível de descrever, desce sobre a Terra, espalha seus tentáculos sobre a humanidade e faz todo mundo se curvar diante dele. No meio das ruínas, com tudo desmoronando, Dylan Dog continua escrevendo, como se manter um diário fosse o último jeito de dar algum sentido ao caos.



Essa é a premissa de “O Fim da Escuridão” (La fine dell’oscurità, Dylan Dog #374), uma das histórias mais estranhas, inquietantes e cheia de simbolismos da fase recente do personagem. Escrita por Mauro Uzzeo, desenhada por Marco Santucci e com capa de Luigi Cavenago, a HQ é uma experiência apocalíptica que vai muito além do horror tradicional. No fundo, ela é uma fábula filosófica sobre verdade, alienação e sobre como as redes sociais estão destruindo nossa capacidade de nos comunicar.

A história saiu no Brasil pela Editora Lorentz, em Dylan Dog Nova Série #1, em uma edição dupla que traz também “A Chama”. Tradução irretocável de Paulo Guanaes.



Uma estreia autoral marcante


“O Fim da Escuridão” é a primeira história de Mauro Uzzeo na série regular e ele já chega mostrando que não está interessado no básico. Aqui não há uma narrativa simples, linear, com começo-meio-fim. Uzzeo prefere algo mais simbólico, quase como um quebra-cabeça que o leitor precisa montar.



O terror não está só no monstro colossal no céu, mas no que ele representa. Para Uzzeo, o apocalipse é também o colapso da comunicação. Logo no início, ele dispara uma frase devastadora: “Quando o apocalipse chegou, ninguém levou a sério.”



E isso remete diretamente ao nosso presente. Vivemos conectados o tempo inteiro, mas cada vez mais incapazes de se entender. A internet, que deveria aproximar, virou ruído, divisão e agressão. Em tempos de fake news e pós-verdade, todo mundo tem sua “verdade pessoal” e quando todo mundo está certo, ninguém está.



Uzzeo contou em entrevista na Lucca Comics & Games que essa história nasceu três anos antes da publicação. Este período longo veio devido ao ritmo editorial lento da Sergio Bonelli Editore e  do trabalho extremamente detalhado de Giorgio Santucci, que se dedicou muito em cada página.



O autor até achou que a HQ podia “chegar tarde demais”, já que o mundo digital muda rápido. Mas aconteceu o contrário: o tema ficou ainda mais relevante. Muitos, inclusive, associam o clima da história a algo como Black Mirror, mesmo que Uzzeo diga que não partiu dessa referência.


God: o deus que criamos

Um dos pontos mais fortes da HQ é a ideia de que criamos o nosso próprio Deus moderno. As imagens de pessoas ligadas ao monstro por “cabos mecânicos” são uma metáfora bem direta: nossa dependência das redes, da informação infinita, das curtidas, dos algoritmos. Sem mencionar que é impossível não lembrar de Matrix (1999), dos humanos ligados às máquinas por cabos semelhantes.



O autor explica que esses cabos representam uma relação ambígua: ao mesmo tempo em que nos nutrimos dessa “verdade digital”, também somos guiados, manipulados e conduzidos por ela. A ideia era que os cabos não fossem superficiais, mas penetrassem fundo: “Na medula espinhal. No coração. Na alma”. A verdade contemporânea, sugere Uzzeo, não apenas informa, ela domina.



Desconectar-se é doloroso, quase uma heresia. E na história, essa ruptura é punida com morte. O horror é claro: o deus moderno não exige fé, exige acesso. A narrativa avança para um terreno ainda mais metalinguístico: e se o verdadeiro deus for o leitor?



A história sugere que Dylan, ao buscar a verdade, encontra um olho eterno observando do céu, como se percebesse que sua existência depende de quem o lê. O leitor dá vida, mas também aprisiona. Dylan Dog existe porque continua sendo consumido, publicado, relançado, revisitado. A consciência disso se torna insuportável.



Surge então um comentário ácido sobre a indústria cultural: personagens de sucesso não podem morrer. Dylan Dog está condenado à eternidade editorial. Franquias não acabam, só se repetem, se reinventam, se prolongam, mesmo que o personagem implore pelo fim.

Nesse sentido, “O Fim da Escuridão” também pode ser lida como uma crítica às séries longas e ao peso de existir apenas porque é preciso continuar existindo.

 


Arte visceral e atmosfera sufocante

A estreia de Marco Santucci na série regular é ótima. Seu traço é sombrio, pesado, carregado de contrastes e de uma violência gráfica que não alivia. O apocalipse aqui é corporal, brutal, desesperador. Crianças, inocentes, ninguém é poupado. Santucci equilibra expressionismo e realismo bonelliano, criando páginas dinâmicas e perturbadoras, em sintonia perfeita com a proposta niilista do roteiro, que foge da realidade que a conhecemos.



A capa de Luigi Cavenago é um espetáculo à parte: um híbrido improvável entre Gustav Klimt e H.R. Giger. Há o dourado ornamental e a composição pictórica de Klimt, misturados ao horror biomecânico e à estranheza orgânica de Giger. O resultado é uma imagem de beleza fascinante e repulsiva, puro body horror em estado de arte.


The Tree of Life (1905), de Gustav Klimt



Aleph (1973) por Hans Rudolph Giger

La fine dell’oscurità (2017) por Gigi Cavenago

Uzzeo, que também trabalha com cinema e televisão, destaca uma diferença essencial ao se fazer um quadrinho: “No audiovisual, tudo depende de orçamento. No quadrinho, não. Desenhar um beijo em um banco custa o mesmo que desenhar uma invasão alienígena ou uma apocalipse”. Em “No Fim da Escuridão ele quis justamente explorar o potencial ilimitado dos quadrinhos para criar imagens impossíveis ao cinema convencional.



Embora o autor negue que que trabalhe com citações diretas, algumas influências emergem naturalmente. Ele menciona atmosferas ligadas ao horror corporal de David Cronenberg (A Mosca – 1986, Videodrome – 1983), ao cinema extremo de Lucio Fulci (Zombie – 1979), e até mesmo ecos internos da própria mitologia de Dylan Dog (como ele ser um personagem, algo que já foi explorado algumas vezes).

O roteiro é tão cheio de camadas que até o nome do deus que chega para o Juízo Final tem significado. “Aletheia”, palavra grega que significa “Revelação” ou o ato de trazer algo à luz. É o nome da Deusa Grega da Verdade.



Mas a referência mais surpreendente vem da música: Uzzeo associa “No Fim da Escuridão à canção “God”, de John Lennon. Na faixa, Lennon enumera tudo em que não acredita mais, até concluir: “Eu só acredito em mim.”


God - John Lennon/Plastic Ono Band (1970)


Uzzeo vê nisso o coração da história: um mundo onde não se acredita mais em nada e a única busca possível é encontrar um ponto firme em meio ao colapso. Aqui, esse ponto não é Deus. É a verdade.


Uma epílogo de esperança

No final, Dylan é salvo por sua namorada Hope (que significa “esperança”). Ela sussurra algo que nunca ouvimos. É uma verdade apenas dele. Talvez a promessa de que, apesar de tudo, ainda exista espaço para sentido, para reinvenção, para criatividade dentro da série, e para a vida em si.



“O Fim da Escuridão” pode não agradar a todos, mas é impossível negar sua ousadia: uma HQ experimental, simbólica, inquietante e profundamente autoral. Mostra um Dylan Dog contemporâneo ao nosso tempo, sem precisar usar celular ou Google. Mesmo depois de centenas de edições, o Investigador do Pesadelo ainda pode surpreender e ainda pode dizer algo novo sobre o mundo em que vivemos.





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