Publicada originalmente na Itália
em Dylan Dog #373 (2017), “A Chama” (La fiamma) é uma das histórias em que a
série encara de frente, sem rodeios, o debate social contemporâneo. Com roteiro
de Emiliano Pagani, arte de Daniele Caluri e capa de Luigi Cavenago, a HQ
chegou ao Brasil pela Editora Lorentz, abrindo a Dylan Dog – Nova Série.
A edição lançada em 2025 trouxe
duas histórias: “A Chama” e “O Fim da Escuridão”. No momento, a editora está
com uma campanha no Catarse para a segunda edição da Nova Série, que reunirá “NoMistério” e “Graphic Horror Novel: A Sequência”.
“A Chama” é o primeiro e único
trabalho de Pagani para a Sergio Bonelli Editore. O autor é conhecido
principalmente por sua atuação na revista satírica Il Vernacoliere, da Toscana,
onde construiu carreira com humor político agressivo, linguagem provocadora e
críticas diretas à política, à Igreja, à polícia e às instituições em geral.
Foi justamente por isso que Roberto Recchioni, então editor de Dylan Dog, o convidou. A ideia era trazer vozes externas, mais politizadas e conectadas com o presente.
A história se passa em um bairro
periférico de Londres, onde antigas tensões sociais explodem em protestos
contra a ampliação de um aterro sanitário. Embora o discurso ambiental exista,
o centro da revolta é outro: mais uma região pobre pagando o preço por decisões
tomadas de cima para baixo.
Depois de dias de manifestações
pacíficas que travam o trânsito, a polícia entra em cena para “restabelecer a
ordem”. O resultado é uma escalada violenta, com confrontos brutais, mortes e a
sensação incômoda de que parte da tropa de choque age não para conter, mas para
punir, quase como carrascos.
Dylan entra no olho do furacão por causa de Alev, sua namorada: ativista impulsiva, radical e incendiária, no sentido literal e simbólico. Seu nome, que significa “chama” em turco, não é coincidência. Alev representa o fogo da revolta, a recusa em aceitar a apatia como resposta. Para ela, o verdadeiro mal é a indiferença: “Tudo o que acontece de ruim no mundo acontece porque as massas viram o rosto.” E sua lógica é clara e perigosa: onde há violência, só a violência gera mudança. Sua fisionomia lembra a de Lisbet Salander, da série Millenium. Alex tem até mesmo uma tatuagem nas costas, de chamas, que lembra o dragão nas costas de Lisbet.
É nesse ponto que surge a figura mais perturbadora da história: o policial 407. Um agente da tropa de choque com aura quase demoníaca, cujo visor reflete rostos que gritam em silêncio. Diferente dos outros, ele não age de forma genérica: seu foco obsessivo é Alev e, às vezes, Dylan. Mais símbolo do que personagem, o 407 é o eixo da narrativa. Ele encarna a indiferença coletiva, o inimigo conveniente em quem a sociedade despeja sua culpa por não agir.
Aqui está a força e o risco do
roteiro. Transformar esse conceito em um policial violento pode soar como uma crítica
direta à polícia ou à brutalidade institucional. Mas a história tenta evitar
esse caminho fácil. Pagani dá espaço para os dois lados, como no diálogo entre
Dylan e o inspetor Tyron Carpenter. O alvo real não é a farda, e sim a apatia
confortável de quem observa tudo de longe sem tomar posição.
Dylan, infelizmente atua mais como ponte entre os lados do conflito do que como protagonista absoluto. Ele participa do embate ao lado dos manifestantes, mas também reconhecendo as perspectivas do outro lado. Seu passado como policial é mencionado, mas pouco explorado como metáfora, um detalhe que poderia ter enriquecido ainda mais o roteiro.
Levando a leitura para o campo
simbólico, a coisa fica ainda mais interessante. Com ecos de Nietzsche (o
“abismo que devolve o olhar”, citado ao longo da edição), o policial 407 pode
ser visto como uma projeção da mente de Alev: um monstro criado a partir de sua
crença na violência como resposta. Não é por acaso que ele surge justamente
quando ela verbaliza essa ideia. Ele a confronta, a testa, exige coerência
total. Dylan só entra na mira quando reage para protegê-la, como se também
estivesse preso à lógica que ela mesma criou.
O título “A Chama” ganha, então, um duplo sentido. A chama ilumina, mas também consome. Agir contra a indiferença cobra um preço alto: desgaste, sacrifício e reação violenta. No fim, ninguém vence. Depois do caos, tudo volta ao “normal”, como se nada tivesse acontecido. Não há mudança real, nem aprendizado coletivo. Os verdadeiros vencedores são justamente os indiferentes, aqueles que não estavam lá, que não se envolveram, que não se importaram.
Visualmente, Daniele Caluri, em seu terceiro trabalho com Dylan Dog (#138 – Il giudizio del corvo e Color Fest #5 - Lacrima di stella), entrega mais uma arte sólida. Seu traço funciona especialmente bem em ambientes sombrios e atmosferas opressivas, algo que ele já havia demonstrado em “A Sentença do Corvo” e que aqui ganha força nos momentos mais próximos do horror. A violência que ele imprime, sobretudo ao número 407, é brutal e verdadeiramente chocante.
A capa de Luigi Cavenago é um
destaque à parte: pesada, desconfortável, construída com uma perspectiva que
coloca o leitor no lugar da vítima. A Lorentz, felizmente, não a desperdiçou e
a reaproveitou na quarta capa da edição.
Desde que Recchioni assumiu a curadoria da série, Dylan Dog voltou a dialogar abertamente com questões sociais, algo presente desde suas origens, mas que havia se diluído com o tempo. Histórias como “Anarquia no Reino Unido” (Nova Série Mythos #2) e “O Terror” (Nova Série Mythos #31) já haviam preparado o terreno para “A Chama”.
O problema é que Dylan Dog exige sutileza, melancolia e contradição: qualidades que não fazem parte do estilo de Pagani. O resultado é uma história coerente com sua carreira, mas desalinhada com a tradição da série. Para muitos leitores, os personagens falam mais como ideias do que como pessoas, algo típico do autor, mas estranho ao universo criado por Sclavi. Não por acaso, Pagani nunca mais voltou a escrever o personagem.
Assim, talvez o maior desconforto
causado por “A Chama” não esteja apenas na violência mostrada nas páginas, mas
no espelho que ela coloca diante do leitor: o da nossa própria indiferença
cotidiana.




















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