Shin Zero – Releitura ousada das equipes de heróis coloridos

Leonardo Fraga
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Em algum momento todo mundo já teve contato com Power Rangers e mesmo quem nunca acompanhou reconhece a fórmula: heróis coloridos, trabalho em equipe, monstros semanais, robôs gigantes e salvar o dia. Esse imaginário é consolidado no Japão e conhecido como Super Sentais (que deram origem aos Power Rangers) e atravessou décadas conquistando o mundo todo.

Se expandiu para brinquedos, filmes, games e inúmeras releituras. Justamente por isso, reinventar esse conceito parece uma tarefa impossível, mas surpreendentemente foi exatamente isso que a HQ “Shin Zero” conseguiu fazer. A HQ é de Mathieu Bablet (roteiro) e Guillaume Singelin (desenhos), lançada na França pela Label 619 e no Brasil pela editora Comix Zone, com tradução de Fernando Paz.




Acessando o Aplicativo Sentai

Em Shin Zero, ser herói, antes lendários e agora irrelevantes, se tornou algo completamente banalizado. Nesse universo, os Kaijus (monstros gigantes como o Godzilla) já foram completamente derrotados e extintos, o que explica a falta de grandes batalhas e a sensação constante de vazio profissional.




Existem Aplicativos Sentais, como Uber ou iFood, onde se contratam heróis uniformizados e coloridos para os mais diversos subempregos. Vai de segurança de boate, faxineiros, e até modelos de sites adultos. O heroísmo virou motivo de chacota, reflexo direto de um mundo que já não precisa e não se importa com salvadores coloridos.



Em vez de “porradaria” e explosões, Shin Zero aposta no desenvolvimento de personagens, nos conflitos internos e nas relações interpessoais de um grupo formado por cinco jovens adultos, que resolvem dividir um apartamento enquanto tentam sobreviver dessa carreira decadente. Amizades frágeis, brigas constantes e até triângulos amorosos ajudam a construir uma narrativa muito mais próxima do cotidiano do que da fantasia tradicional.



Pegando o serviço e iniciando a corrida

O foco principal recai sobre Warren, o Sentai (Ranger) Verde. Recém-formado no ensino médio, com boas notas e uma bolsa de estudos garantida, ele tinha um futuro promissor pela frente. No entanto, tudo muda quando descobre que sua paixão de infância e vizinha (Heloise, a Sentai Azul), decidiu se tornar sentai para conseguir uma renda extra. Movido por sentimentos mal resolvidos, Warren abandona seus planos e escolhe mergulhar nesse estilo de vida instável.



Cada integrante da equipe possui uma identidade bem definida. Satoshi, o Sentai Vermelho e líder, é o mais entusiasmado com a ideia de ser um sentai e leva o trabalho extremamente a sério. Heloise vem de uma família conservadora e passa a experimentar novas possibilidades ao sair da casa dos pais.



Sofia, a Sentai amarelo e cunhada de Satoshi é a mais madura: mãe solo, tenta equilibrar a vida de heroína com a responsabilidade de ser exemplo para o filho. Já Nikki, a Sentai Rosa é a rebelde do grupo, sempre estressada, impulsiva e cheia de segredos. Juntos, esses cinco personagens formam uma equipe caótica, humana e cheia de falhas e é justamente isso que os torna interessantes.




Bablet, um grande construtor de mundos como em Shangri-la e Bela Morte, ambas publicadas no Brasil pela SESI-SP, aos poucos vai inserindo uma trama de mistério em torno do desaparecimento dos Kaijus. Essa trama é guiada por Satoshi que quer devolver a relevância aos Sentais.



Shin Zero e as referências que vão além de Power Rangers

Na orelha da contra capa da edição está uma linha do tempo que mostra desde a aparição do primeiro Kaiju até os dias atuais. E vemos que o surgimento do primeiro monstro foi em 1933, mesmo ano do lançamento do filme King Kong, da RKO Pictures. O primeiro filme de Godzilla (Gojira, no original japonês) estrearia em 1954.


King Kong (1933) - RKO

Descobrimos que os heróis eram submetidos a experimentos genéticos que os faziam crescer fisicamente e em 1939 foi criada a primeira equipe Sentai que conseguia agigantar seus corpos, como Ultraman. Na série tokusatsu (termo japonês para filmes e séries que utilizam muitos efeitos especiais) lançada em 1966, o hospedeiro humano do Ultraman, Shin Hayata, aumentava de tamanho através de um processo envolvendo a luz e um dispositivo chamado Beta Capsule.


Ultraman (1966) - TBS



Em Shin Zero, os veteranos da antiga tropa Sentai vivem hospitalizados sofrendo com os efeitos colaterais da transformação, com seus corpos aumentando algumas partes de forma bizarra como Tetsuo sofre em Akira, de Katsuhiro Otomo. É uma abordagem sombria e inesperada, que dialoga diretamente com temas como exploração, descarte e as consequências físicas e psicológicas do heroísmo.



E os robôs gigantes, não vai ter? Tem sim. Em 1969 surge o programa Mecha, para substituir a tecnologia genética perigosa que aumentava o corpo dos Sentais. Porém, Bablet só arranhou essa camada nesta primeira edição, contando um pouco da história dos mechas em algumas páginas como se Satoshi estivesse lendo uma revista.



A cultura Mecha no Japão surgiu em 1956 com o mangá e depois Anime, Tetsujin 28-go, criado por Mitsuteru Yokoyama. Mas, diferente dos Super Robôs quase míticos e com poderes exagerados como Mazinger-Z (já publicado no Brasil pela NewPop), Bablet parece querer usar mais a vertente dos Robôs verdadeiros, muitas vezes ligados à vontade do piloto como a abordagem de Mobile Suit Gundam, criado em 1979 por Yoshiyuki Tomino, que transforma o mecha em instrumento de guerra, sujeito a falhas, interesses políticos e sofrimento humano.




Singelin e seu magnífico traço

Visualmente, Shin Zero é um grande destaque. Personagens com anatomias distintas, designs marcantes, uniformes visualmente fortes e cenários ricos em detalhes. Mesmo com poucas cenas de ação, as coreografias são fluidas e bem pensadas.



Embora carregue fortes referências japonesas, Shin Zero se afasta do mangá tradicional. O traço, a composição e o ritmo lembram muito mais o quadrinho europeu contemporâneo, com ecos de autores franceses modernos. As influências orientais aparecem principalmente nas cenas de ação, com linhas de movimento e onomatopeias, mas de forma contida e funcional.

Todo o quadrinho é em preto e branco, exceto pelos sentais, que surgem sempre em cores vibrantes. O recurso cria contraste imediato e reforça o deslocamento desses personagens em uma sociedade que já não sabe o que fazer com eles. O mesmo cuidado aparece nas cenas de mensagens de celular, em que cada personagem tem sua fala colorida de forma distinta, facilitando a leitura e enriquecendo a narrativa visual.



Diferente dos tokusatsu clássicos, aqui os uniformes não concedem poderes especiais. São apenas trajes. Facas atravessam o tecido, ferimentos são reais, e o risco é constante. Isso reforça a proposta da obra: esses heróis não são invencíveis, são trabalhadores comuns, expostos e descartáveis.



No fim da corrida

A edição da Comix Zone conta com 216 páginas e tem o tamanho de um mangá comum. É muito caprichada com detalhes brilhosos na capa, e ainda acompanha quatro cards colecionáveis belíssimos reforçando o cuidado editorial. A série promete concluir em três volumes, mas apenas o primeiro foi lançado na Europa.



Shin Zero se mostra uma HQ inteligente, atual e surpreendentemente acessível, inclusive para quem nunca teve grande contato com sentais. Fala sobre juventude, precarização do trabalho, expectativas frustradas e o peso de tentar se encontrar em um mundo que já não valoriza certos sonhos. Um quadrinho sobre heróis mas, sobretudo, sobre pessoas comuns tentando sobreviver. A obra foge completamente do óbvio, se firmando como uma leitura recomendada para quem busca algo diferente, crítico e humano dentro do universo dos super-heróis.




Trailer de Shin Zero pela Label 619:


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