Head Lopper #1 - Espada & feitiçaria com humor ácido e narrativa brutal

Leonardo Fraga
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Quando Andrew MacLean lançou Head Lopper, a proposta era clara: fazer uma fantasia que bebesse na fonte da espada & feitiçaria clássica, mas com identidade própria, violência estilizada brutal e um senso de humor sombrio que corta tão fundo quanto a espada do protagonista. Se comparações ajudam a situar a leitura, pense em O Senhor dos Anéis encontrando Hellboy, com ecos de Conan, o Bárbaro, mesas de Dungeons & Dragons e uma pitada inesperada de Hora da Aventura. O resultado dessa mistura atende por: Head Lopper!



O primeiro arco, The Island or a Plague of Beasts (A Ilha ou a Praga das Bestas), tem roteiro e arte de MacLean, cores de Mike Spicer e foi publicado pela Image Comics em formato encadernado. São 275 páginas que reúnem as quatro primeiras edições da série, além de inúmeros sketches e capas alternativas. Como porta de entrada para esse universo, é difícil imaginar algo mais eficiente.



Um Mercenário e uma cabeça de bruxa entram em uma ilha...


A trama acompanha Norgal, conhecido como “O Decapitador” (Head Lopper), um guerreiro errante que resolve problemas com espada, punhos e uma impressionante capacidade de sobreviver ao impossível. Ao seu lado, literalmente pendurada no cinto está Agatha, a Bruxa Azul. Que nada mais é do que uma cabeça azul de uma bruxa decapitada que continua viva e tagarela.



Toda a história se desenrola na Ilha de Barra e acompanhamos em um mapa clássico de aventuras a trilha que eles percorrem até o final da história. Barra é um reino assolado há décadas por uma praga de feras monstruosas. Norgal chega de navio e imediatamente é posto à prova ao enfrentar uma gigantesca serpente marinha. Fiel ao seu apelido, resolve a questão como sabe fazer melhor: com uma decapitação.



Logo é incumbido pela Rainha Regente Abigail, (que governa no lugar de seu filho, o Rei Aaron pois é muito criança), de eliminar o Feiticeiro do Pântano, responsável pela praga de feras. Essa missão o conduz pelo coração de Barra, explorando a estranha e variada topografia do lugar, além das intrigas políticas da ilha. A trama, em essência, é simples: há uma ameaça, há um contrato implícito e há um herói disposto a atravessar hordas de criaturas para resolver o problema. A força da HQ não está na complexidade do enredo, e sim na forma como ele é contado.



É possível perceber que MacLean dedicou tempo à criação desse mundo. Sua tripla função como roteirista, artista e letrista (além de colorir o terceiro capítulo) demonstra sua dedicação à história. A edição nos dá o tom de ser uma história épica. Tem mapas, títulos impactantes e atmosfera que remete às grandes sagas heroicas, mas com um humor seco e contemporâneo que quebra as expectativas. Além de explorar e muito a linguagem dos quadrinhos, MacLean cria uma HQ brutal (brutal é a palavra, acostume-se), estilosa e, ao mesmo tempo, sensível.





O traço cartunesco contrasta com a brutalidade (aí ó) da ação. Não é um realismo sujo à la dark fantasy tradicional. É algo estilizado, com linhas limpas e cores chapadas que lembram animação, mas que ganham peso pela coreografia dos combates. Cada golpe de espada tem impacto. Cada criatura é desenhada com muita criatividade. Essa combinação cria um ritmo curioso: a leitura é rápida, mas a sensação é de densidade. Você passa pelas páginas com fluidez, mas fica com a impressão de ter atravessado algo maior: épico!


 

O Bárbaro, a Bruxa e a Guerreira Errante...



Norgal é um protagonista extremamente envolvente, apesar de não ter muito diálogo. Ele é também conhecido como Filho do Minotauro, o Executor e claro Head Lopper. Um homem imponente, de longa barba branca e uma voz que soa “como pedra raspando contra osso”. Seu design enfatiza força e poder. Gargalha alto, aprecia velhos amigos e carrega mais humanidade do que a aparência sugere.





Em contraste direto com esses valores, Agatha, a Bruxa Azul, é uma cabeça decepada de língua afiada que Norgal carrega sobre o ombro. Amaldiçoada a viver após a morte, ela passa a maior parte da HQ irritando Norgal e tentando conseguir um pedaço de carne fresca. Com liberdade para dizer o que quiser, Agatha tem o carisma instantâneo e a sagacidade de uma anciã saída de um filme do Studio Ghibli.





É um incômodo, um fardo constante. Ao mesmo tempo, é a companhia perfeita para o silencioso Norgal, funcionando como quebra de tensão e alívio cômico em várias cenas importantes. Há um momento em que Agatha conversa com um crânio que, por razões óbvias, não responde. 



Essa conversa é intercalada com uma batalha tensa e violenta contra uma Aranha gigantesca, que lembra a Laracna, de O Senhor dos Anéis. Em certo ponto, somos levados a acreditar que Agatha usaria sua magia para ajudar Norgal, mas ela simplesmente ri na cara dele. Agatha é uma ótima personagem, engraçada, misteriosa e maligna.



Para MacLean, eles não podem ser considerados amigos, pelo menos não nesta edição. Trata-se de uma convivência forçada, marcada por antagonismo, dependência e momentos pontuais de cooperação. Norgal mantém motivos ainda parcialmente obscuros para continuar carregando a cabeça de Agatha. MacLean adianta que a terceira edição aprofunda as razões dessa ligação e explora com mais clareza o passado e as motivações de ambos.




Há também os ótimos personagens coadjuvantes que vão surgindo ao passar dos capítulos. Destaca-se Lulach, figura marcada por um passado profundo e trágico que o conduz ao papel de antagonista. Movido por ambições pessoais, ele deseja tomar a cabeça de Agatha para si e chega a capturar Norgal, colocando o protagonista em uma de suas situações mais críticas.



Lulach é ambicioso, calculista e preso a um jogo político dentro e fora do Castelo da Rainha. Ele tem profundidade psicológica e conflitos internos claros e sua trama é tão, ou mais interessante que a do próprio vilão da história, o Feiticeiro do Pântano.




A Rainha Abigail simboliza a liderança fragilizada de um reino corroído por pragas e corrupção. Já Zhaania Kota Ka, a Guerreira Errante, surge como caçadora de monstros, forte, independente e habilidosa. Seu confronto ideológico com Norgal, incluindo discussões sobre a superioridade de lanças ou espadas, acrescenta dinamismo e amplia o universo da série.





Movimentos, Espadas e Cortes precisos....


Visualmente, Head Lopper impressiona pela simplicidade calculada. MacLean utiliza traços limpos e econômicos, cores chapadas e composição precisa. Há ecos de Mike Mignola no uso dramático de sombras, mas a identidade aqui é mais dinâmica, marcada por um senso de movimento muito próprio.



Balões, onomatopeias e espaços vazios conduzem o olhar do leitor com precisão quase musical. Em uma cena, o foco percorre o rosto de um monstro, desliza pela lâmina de Norgal e retorna por meio de um efeito sonoro estrategicamente posicionado. Ritmo, aqui, não é apenas velocidade, é controle.



MacLean desacelera quando quer solenidade. Um arqueiro preparando um disparo ganha três quadros silenciosos dedicados exclusivamente ao gesto. O tempo se dilata. O combate ao redor continua, mas o foco dramático se concentra naquele instante.




Nos quadrinhos, o movimento normalmente acontece entre os quadros, preenchido pela imaginação do leitor. MacLean decide expor parte desse intervalo: um salto ganha um momento suspenso. Uma decapitação é fragmentada em etapas mínimas. Não é excesso, é precisão. Ao repetir enquadramentos e alterar apenas o essencial, ele cria tensão, expectativa e peso dramático.



No fim das contas, Head Lopper comprova que menos pode ser mais. Com estética aparentemente simples e uma narrativa que cresce em complexidade sem perder fluidez, Andrew MacLean constrói uma saga vibrante, acessível e cheia de personalidade. Uma fantasia brutal, sim, mas também inteligente, segura de si e apaixonada pela linguagem dos quadrinhos.



Um quadrinista metaleiro entra na Taverna...




A trajetória de Andrew MacLean ajuda a explicar a energia particular da obra. Natural de Athol, Massachusetts, o autor cresceu durante o boom dos quadrinhos dos anos 1990, aprendendo a desenhar por imitação, copiando painéis e absorvendo referências visuais. Durante a juventude, no entanto, desviou-se temporariamente para a música, mergulhando no metal progressivo e compondo sob influência de bandas como Mastodon, Opeth e Symphony X.




A experiência musical foi intensa, mas a dinâmica colaborativa de uma banda acabou se tornando um obstáculo. Os quadrinhos, por outro lado, ofereciam autonomia total: papel, tinta e silêncio. Foi nessa solidão produtiva que MacLean encontrou sua voz. Ao redescobrir o potencial amplo das HQs, especialmente após entrar em contato com obras como Hellboy e The Umbrella Academy, ele percebeu que os quadrinhos podiam ir muito além dos super-heróis. A partir daí, mergulhou em uma rotina obsessiva de produção, desenvolvendo gradualmente o estilo que hoje o define.



Entre suas influências literárias e visuais estão autores como Fritz Leiber e H. P. Lovecraft, além do mangá Nausicaä do Vale do Vento, de Hayao Miyazaki. O clássico Lobo Solitário e artistas como Moebius e Jaime Hernandez. Apesar da ambientação fantástica, ele próprio admite nunca ter jogado RPG de mesa como Dungeons & Dragons, uma curiosidade que contrasta com a densidade mitológica de sua criação.



A transição definitiva para a vida de autor independente não foi isenta de riscos. McLean relembra um momento crucial de vulnerabilidade quando se mudou com a esposa e não conseguiu encontrar um emprego convencional. O que poderia ter sido um desastre financeiro tornou-se o catalisador de sua carreira. Sem entrevistas de emprego à vista, ele utilizou cada recurso online disponível para buscar trabalhos de design gráfico e ilustração, preenchendo as lacunas com a produção de seus próprios quadrinhos.

 



Dois barbudos entram na Image Comics...


Head Lopper nasceu no cenário de quadrinhos independentes e se tornou muito maior e influente do que se possa imaginar. Norgal surgiu a partir de um exercício artístico no site Brand New Nostalgia, quando MacLean desenhou um viking empunhando a cabeça de uma bruxa. A ideia chamou atenção e se transformou em uma história autopublicada por MacLean. Head Lopper #1 saiu em junho de 2013 com uma tiragem pequena vendida em eventos de quadrinhos.



O segundo número foi financiado pelo Kickstarter (uma espécie de Catarse norte-americano), onde os leitores mostraram interesse e impulsionaram a continuidade da série. Até que em 2015, Head Lopper foi descoberta pelo editor Eric Stephenson que levou a série para a Image Comics, que a lançou em formato “minissérie”. Com a Image a série cresceu e foi publicada completa em quatro encadernados.


Primeira imagem de Norgal e Agatha publicada no site Brand New Nostalgia


Hoje, consolidado como um dos autores mais distintos de sua geração, Andrew McLean mantém uma perspectiva humilde e cautelosa sobre a indústria. Para ele, a vida criativa é inerentemente frágil e temporária, o que o obriga a estar em constante movimento. Sua trajetória serve como um lembrete de que, às vezes, a melhor ferramenta de um artista não é apenas o seu talento, mas a coragem de ser "selvagem" o suficiente para seguir seus próprios instintos, custe o que custar.



A Image prepara para 2026 o lançamento de um novo arco de histórias e um novo número #1 para abril, servindo tanto como ponto de entrada, como continuidade da saga de Norgal. MacLean postou um trailer de uma animação de Head Lopper, mas segundo ele é apenas uma prova de conceito e que não há nenhuma produção de série animada em desenvolvimento.








Norgal pelo brasileiro Rafael Grampá.


Norgal e Agatha por Mike Mignola





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