Publicado em Portugal pela editora A Seita, em 2021, Lucky Luke – Jolly Jumper já não responde, de Guillaume Bouzard, propõe uma abordagem bastante diferente dentro do universo do cowboy mais rápido que a própria sombra. Em vez de apostar em tiroteios, perseguições e grandes confrontos, o álbum encontra sua força principalmente no humor e na relação íntima entre Lucky Luke e seu cavalo, Jolly Jumper.
A edição tem 48 páginas e traz uma premissa simples, mas inesperada: Jolly Jumper simplesmente deixa de “conversar” com Lucky Luke, rompendo uma das dinâmicas mais tradicionais e queridas da série. O silêncio do cavalo abala profundamente o cowboy, como se algo essencial tivesse desaparecido. Luke passa a questionar o vínculo entre os dois e tenta de tudo para restaurar a harmonia chegando até a trocar a cor da camisa, em um gesto tão absurdo quanto engraçado.
Só pra contextualizar, o cavalo não “fala” realmente com Lucky, como se fosse uma fábula. Os leitores conseguem saber o que ele está pensando com balões de fala e Jolly consegue falar com outros animais. Porém, na história ele é um animal comum. Porém, ele se “comunica” o tempo todo com o Cowboy.
Jumper o ajuda sempre a fugir dos saloons pela janela, tomam café juntos, interage com Lucky em seus desabafos nas longas pradarias, e muito mais. Na edição, Jolly simplesmente ignora Lucky em todos os momentos, o que o deixa magoado como um marido que deixou de falar com a esposa, mas não sabe por quê!
Enquanto enfrenta essa crise pessoal, Lucky Luke também precisa cumprir uma missão solicitada pelo diretor do presídio onde os Dalton estão presos. A pedido dos próprios irmãos, Luke deve ajudar a resgatar Mãe Dalton, sequestrada por criminosos. Essa linha narrativa funciona como pano de fundo para uma série de gags engraçadíssimas e situações cômicas em vez de ação constante.
Bouzard não busca o ritmo frenético de outros volumes recentes, especialmente o anterior, “Lucky Luke muda de sela”, de Mawill, marcado por uma sucessão acelerada de eventos. Aqui, o foco é outro: a comédia domina completamente, com piadas visuais, diálogos irônicos e um tom leve, quase experimental. Algumas piadas se estendem por páginas inteiras, ao invés de se resolverem em poucos quadros, como é feito nas edições tradicionais.
Um exemplo memorável é a piada envolvendo um guarda da prisão que descobre que os Dalton sofrem de daltonismo (quando não consegue distinguir as cores, especialmente verde e vermelho) mas, sem saber o termo correto, começa a falar nomes técnicos como “discromatopsia”, divertindo-se sozinho com sua própria esperteza equivocada.
O álbum também reserva surpresas em sua reta final: além de recuperar um grande vilão da fase clássica, Bouzard introduz elementos pouco comuns nas aventuras de Lucky Luke, reforçando o caráter ousado e irreverente da obra dentro da franquia.
Visualmente, a arte acompanha essa proposta. O traço cartunesco, os cenários minimalistas e a ênfase nas expressões faciais valorizam o timing das piadas e o humor físico. O resultado é uma história que se destaca menos pelo espetáculo e mais pela criatividade cômica.
Jolly Jumper já não responde
mostra que Lucky Luke continua sendo um personagem capaz de se reinventar
décadas depois de sua criação e que o Velho Oeste também pode ser palco para o
nonsense, o afeto e o riso.
O francês Guillaume Bouzard
começou sua trajetória desenhando em seu próprio fanzine, Caca Bémol. Na
Academia de Belas-Artes de Toulouse, conheceu Pierre Druilhe em 1989 (não
confundir com Philippe Druillet, de Lone Sloane), com quem criou a HQ “Les
Pauvres Types de l’Espace”. Nela, gêmeos extraterrestres acabam caindo na Terra
disfarçados de ZZ Top e, entre uma bebedeira e outra, encontram os próprios
autores, que passam a escrever uma história em quadrinhos sobre os aliens.
Desde o final dos anos 1980,
Bouzard vem realizando trabalhos para diversas publicações independentes.
Rapidamente se tornou um nome popular no circuito de fanzines, sendo apontado
como um dos artistas mais promissores de sua geração.
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| Imagem do próximo Lucky Luke de Bouzard. |
Em 2026, Lucky Luke comemora 80 anos e Bouzard foi convidado para mais um “Lucky Luke por...”. Seu novo álbum, com lançamento previsto para 20 de fevereiro, levará os leitores aos bastidores da futura série audiovisual de Lucky Luke, que estreará no Disney+ ainda este ano.
Publicado pela Dargaud, o volume
terá 80 páginas e o título provocador: L’homme qui a vu l’homme qui filme
l’homme qui tire plus vite que son ombre (“O homem que viu o homem que filma o
homem que atira mais rápido do que a própria sombra”).
A obra promete ser mais uma
demonstração de como Bouzard transforma o mito de Lucky Luke em matéria-prima
para humor, metalinguagem e reinvenção.
















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