Antes de se tornar um dos quadrinistas mais populares da Argentina com Macanudo, Ricardo Siri, mais conhecido como Liniers, iniciou sua trajetória autoral com uma tira semanal chamada Bonjour. Publicada entre setembro de 1999 e junho de 2002 no suplemento "No", do jornal Página/12, a série funcionou como um terreno livre para experimentação, onde o autor buscava sua própria voz artística.
As tiras foram reunidas em livro e chegaram ao Brasil em 2010, pela Zarabatana Books, em uma edição de 128 páginas. Aqui encontramos um Liniers em estado bruto: humor absurdo, situações cotidianas que escorregam para o surreal e uma liberdade narrativa quase total. É um quadrinho que parece sempre pronto para quebrar suas próprias regras e é justamente nessa inquietação que surge sua força.
Por intermédio da quadrinista Maitena Burundena, Liniers foi
convidado a trabalhar no jornal La Nación, o que o levou a encerrar Bonjour no
Página/12. Dessa transição nasceu Macanudo, obra que o consagraria
internacionalmente e o levaria, anos depois, a ilustrar capas para a
prestigiada revista americana The New Yorker.
Um mundo sem limites: pinguins, coelhos e cultura pop
Em Bonjour, Liniers já introduz elementos que se tornariam
marcas registradas: os pinguins filosóficos, homenzinhos de chapéu, pássaros e
coelhos falantes. O próprio autor aparece frequentemente como personagem,
desenhado de forma caricatural, cabelo curto, óculos, até que, com o tempo,
ganha orelhas e se transforma em um coelho. Essa metamorfose culminaria mais
tarde em Conejo de Viaje, obra ainda inédita no Brasil, em que ele registra
suas passagens por outros países.
O elenco de Bonjour é ilimitado: surgem celebridades e ícones improváveis como Quino, criador de Mafalda, Penélope Charmosa, Alf, os Beatles, Teletubbies e até Jesus. Não há fronteiras para o humor de Liniers. Algumas tiras são delicadas e terminam com um choque, outras começam como gags inocentes e se transformam em comentários corrosivos. Tudo cabe: da ternura mais pura a um humor negro doentio.
Uma tira “esquizofrênica” e poética
Liniers cresceu na Argentina sob a influência de gigantes
como Quino, mas foi o incentivo do pai para aprender inglês que abriu outra
porta: o humor ácido da revista MAD. Em entrevista, ele brincou: “Meu pai achou
que estava sendo esperto ao me comprar revistas em inglês para eu me tornar um
advogado culto. Mas ele me deu a MAD e o Direito foi apagado da minha mente.”
Essa mistura improvável de referências, quadrinhos
argentinos clássicos e sátira americana, resultou em uma obra que foge do
convencional. Diferente de clássicos como Calvin e Haroldo, em que acompanhamos
um núcleo fixo e uma narrativa mais linear, Bonjour é algo “esquizofrênico” e
poético: a cada dia, um universo novo, um personagem diferente, uma estrutura
inesperada.
O livro também mostra a evolução constante do traço do
autor. Além do cartunesco, Liniers arrisca desenhos realistas, fotomontagens e
formatos pouco usuais: tiras verticais, páginas inteiras com apenas uma imagem,
jogos gráficos que desafiam a própria ideia do que é uma tira de jornal.
Entre as séries recorrentes estão personagens como Warner, o homem para quem tudo dá errado, como o dia em que ele estava no Titanic e...., Love Story, com momentos constrangedores de romance, Cactos, sobre a interação silenciosa de um cacto com o mundo, quando o mundo vem até ele. E, claro, os pinguins, que dialogam com o próprio autor em tiras tão engraçadas quanto filosóficas. Estes, em pequenos passos migraram anos depois para Macanudo, se tornando os mascotes de Liniers.
Mais que um “pré-Macanudo”
Reduzir Bonjour a um simples “pré-Macanudo” seria injusto. O
livro possui tiras de enorme qualidade, inteligência e graça. Há aqui humor
metalinguístico, sensação de sonho acordado, criatividade sem freios. Pode soar
estranha para leitores que esperam algo mais convencional, mas justamente aí
está seu encanto: Bonjour é o prazer do inesperado.
Em Macanudo, Liniers faz algo que o distancia de Bonjour,
quando consolida um verdadeiro “universo afetivo”: Enriqueta, o gato Fellini,
Olga e tantas figuras hoje inesquecíveis. Desde 2002, a tira é publicada
diariamente no La Nación e semanalmente no jornal espanhol El País.
O desafio do breve que rompe fronteiras
Resenhar um livro de tiras não é simples. É tentar traduzir
uma leitura feita em lampejos, em intervalos. O impacto está menos na trama e
mais na sensibilidade: no olhar do autor, no tipo de humor, na maneira como uma
ideia breve pode abrir uma fresta enorme.
Por isso, tanto a tira diária quanto a crítica de um livro
de tiras compartilham uma dificuldade essencial: trabalhar com o pequeno sem
tratá-lo como menor. Sustentar, página após página, a intensidade do breve. E
nisso, Liniers sabe fazer com folga.
Nos últimos anos, Liniers alcançou o que muitos consideram o ápice da ilustração: tornou-se colaborador frequente das capas da The New Yorker, teve suas tiras distribuídas pela King Features nos Estados Unidos e consolidou sua obra como um fenômeno internacional.
Capas de Liniers para a The New Yorker
Vivendo atualmente em Vermont (EUA), ele continua quebrando barreiras linguísticas e culturais com seu humor visual e a sensibilidade universal de seus desenhos provando que, às vezes, é no espaço mínimo de uma tira que cabe um mundo inteiro.
| Liniers. Foto Ricardo Ceppi - Getty Images |
















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