Blue Period #1 é um mangá criado pela mangaká Yamaguchi Tsubasa, já está na sua 18ª edição no Japão e no Brasil, publicado pela Panini está na sua 16ª. Mais do que uma obra sobre pintura ou vida acadêmica, trata-se de uma narrativa sensível e profundamente humana sobre amadurecimento, identidade e o impacto transformador da arte.
Uma primeira impressão enganosa
Ao iniciar a leitura, é fácil ter
a impressão de que Blue Period seguirá um caminho didático, quase como um
manual artístico em forma de quadrinhos. Essa sensação remete imediatamente às
obras de Scott McCloud, conhecido por explicar a linguagem dos quadrinhos de
maneira acessível e teórica. No entanto, essa expectativa logo se desfaz. O que
Yamaguchi Tsubasa entrega é algo muito mais íntimo e emocional: uma história
sobre autodescoberta, angústia juvenil e a busca por sentido em um mundo que
exige decisões cada vez mais precoces.
Yatora Yaguchi: talento, vazio e conformismo
O protagonista, Yatora Yaguchi, é
apresentado como um jovem aparentemente bem ajustado, mas internamente perdido.
Apesar de ser um excelente estudante, ele não enxerga propósito em sua própria
rotina. Frequenta as aulas, tira boas notas, sai para beber, fumar e assistir
jogos com os amigos, tudo feito quase no automático. Sua condição social também
pesa: vindo de uma família sem recursos financeiros, Yatora não alimenta
grandes expectativas de ingressar em uma universidade particular renomada.
Esse conformismo silencioso é um
dos pontos mais fortes do mangá. Yatora não é retratado como um fracassado, mas
como alguém que simplesmente ainda não encontrou algo que faça sentido. Essa
sensação de vazio existencial é extremamente comum e torna o personagem
imediatamente identificável para o leitor.
O encontro com a arte
A grande virada acontece quando
Yatora entra em contato com o mundo das artes visuais. Um quadro exposto na
sala de aula é o suficiente para provocar um impacto profundo nele. Pela
primeira vez, Yatora sente vontade genuína de se expressar e de compreender
algo que vai além das obrigações escolares.
Incentivado por sua professora de
artes, Yatora começa a estudar pintura de forma intensa, frequentando cursos
preparatórios e dedicando horas ao aprendizado técnico e conceitual. Seu
objetivo passa a ser ambicioso: tentar uma vaga na Universidade de Artes de
Tóquio, uma das instituições públicas mais prestigiadas e concorridas do Japão.
As chances são mínimas, e o próprio mangá não esconde a brutalidade do processo
seletivo.
É nesse momento que Blue Period realmente começa sua jornada, acompanhando o crescimento de Yatora tanto como artista quanto como ser humano.
Arte como linguagem e conflito
Um dos grandes méritos da obra
está na forma como Yamaguchi Tsubasa integra o aprendizado artístico à
narrativa. Técnicas de desenho, uso de materiais, estilos de pintura e
referências históricas são apresentados de maneira orgânica, sempre conectados
aos conflitos emocionais dos personagens.
Diversas obras e artistas reais
são citados e devidamente creditados ao longo do mangá, o que reforça seu
caráter quase educativo, sem jamais se tornar maçante. Este ponto do mangá, que
nos faz ir atrás de arte, artistas e coisas relacionadas ao assunto é muito
interessante e funciona.
Além disso, o processo da arte
não aparece como algo romantizado ou fácil: ela exige esforço, frustração,
autocrítica e, muitas vezes, sofrimento. Tudo retratado em Blue Period.
Personagens secundários e identidade
Além de Yatora, o mangá apresenta
um elenco de personagens secundários igualmente interessantes, cada um lidando
com suas próprias inseguranças e dilemas. A obra aborda temas como identidade
pessoal, expectativas familiares, pressão social, sexualidade e o medo
constante do futuro.
Esses conflitos ajudam a
construir um panorama amplo sobre a juventude contemporânea, especialmente
dentro de um sistema educacional altamente competitivo. Blue Period não oferece
respostas fáceis, mas convida o leitor a refletir sobre quem somos, quem
esperamos ser e até que ponto nossas escolhas são realmente nossas.
Aspectos visuais e limitações do primeiro volume
Visualmente, o mangá é belíssimo.
A expressividade dos personagens e a forma como a arte é representada nas
páginas criam uma experiência envolvente. No entanto, como se trata de um mangá
em preto e branco, surge uma curiosidade natural em relação às cores das obras
citadas e produzidas pelos personagens. Por isso, é recomendável
pesquisar essas imagens na internet para complementar a leitura.
Neste primeiro volume, alguns
dramas são apresentados de forma um pouco superficial, especialmente a questão
financeira de Yatora, que poderia ter maior aprofundamento. Ainda assim, fica
claro que esses temas serão melhor desenvolvidos nos volumes seguintes,
funcionando aqui como uma introdução emocional e narrativa.
Blue Period #1 é uma obra sensível, inspiradora e honesta sobre o impacto da arte na vida das pessoas. Mais do que um mangá sobre pintura, é uma história sobre coragem, dúvida e a difícil tarefa de escolher um caminho quando tudo parece incerto. Um título essencial para quem já se sentiu perdido, para quem encontrou na arte uma forma de se descobrir e para quem não tem talento mas através da dedicação consegue realizar seus sonhos.
O significado do título
O título Blue Period faz
referência direta ao “Período Azul de Pablo Picasso”, que ocorreu entre 1901 e
1904, uma fase marcada por melancolia, pobreza e introspecção na vida do
artista. A escolha não é casual: assim como Picasso, Yatora atravessa um
momento de crise e transformação, usando a arte como meio de compreender a si
mesmo e ao mundo ao seu redor.
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| "Des pauvres au bord de la mer" (Miseráveis diante do mar) ou A Tragédia. É uma pintura do espanhol Pablo Picasso, concebida em 1903. |
Adaptação para Anime
Parte do mangá já recebeu uma
adaptação em anime, disponível na Netflix, o que ajudou a ampliar ainda mais o
alcance da obra. Embora a adaptação seja competente, o mangá se destaca pela
profundidade emocional e pelo cuidado com o ritmo da narrativa. Porém, a
questão das cores traz um enorme diferencial para quem acompanha o Anime.

















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