Lucky Luke – Os Indomados

Leonardo Fraga
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Minha primeira leitura do ano foi Lucky Luke – Os Indomados, escrita e desenhada por Blutch, publicado pela Editora portuguesa A Seita. Lançado em 2024, a edição tem 72 páginas, 45 de história e o restante de Extras. Os Indomados, ou Untamed, no original, é a mais recente edição de Lucky Luke fora da série regular.




“Lucky Luke por” abriu espaço para obras mais autorais usando o personagem Lucky Luke. A mesma ideia aplicada no Brasil nas Graphics MSP, que trazem a Turma da Mônica e outros personagens de Maurício de Sousa, no traço de outros autores brasileiros. Em Lucky Luke, essa proposta iniciou com Matthieu Bonhomme, que trouxe as obras O Homem que Matou Lucky Luke e Lucky Luke Procurado, ambas já publicadas no Brasil pela editora Trem Fantasma.



Os Indomados é a sexta edição desta série. Assinada por Blutch, autor veterano e respeitado nos quadrinhos europeus, cria uma trama inusitada: Lucky Luke, o cowboy solitário, é obrigado a cuidar de duas crianças. Mas a premissa simples, traz uma série de acontecimentos e reviravoltas surpreendentes, remetendo muito ao clássico da série, assinado por René Goscinny (co-criador de Asterix) e Morris (criador de Lucky Luke).



Crianças indomáveis e um cowboy fora de eixo

Rose e Casper, os irmãos que entram abruptamente na vida de Lucky Luke, são o verdadeiro coração da história. Longe de crianças “fofas” ou moralmente exemplares, eles são duas pestes e exatamente por isso fascinantes. Rose é caótica, imprevisível, quase destrutiva. Casper parece existir em outra frequência da realidade, como se estivesse lendo um roteiro diferente do resto do mundo. Desde a primeira aparição, fica claro que eles não são meros coadjuvantes, mas o motor narrativo do álbum, que vai e vem volta à eles.



A trama inicia a partir de um evento aparentemente simples: Lucky Luke leva mais um criminoso ao xerife de “Rubbish Gulch” e, a partir daí, uma cadeia de coincidências, confusões e desastres começa a se acumular. O desaparecimento dos pais das crianças, a presença de outros membros da família e uma caça ao tesouro engordam o enredo, num modelo claramente inspirado na estrutura clássica de Goscinny: uma sucessão de gags e situações que se empilham até o desfecho.



Há momentos genuinamente engraçados, especialmente nas interações entre Lucky Luke e as crianças, do qual ele não leva o menor jeito para cuidar delas e sempre tenta deixá-las com alguém. Na escola, com senhoras que tentam lhes apresentar os bons costumes e até mesmo com as dançarinas do Saloon. O recurso das crianças como geradoras de caos rende bem na primeira metade, e na segunda metade, a trama familiar delas ganha mais força.


Jolly Jumper nunca andou tanto

A trama é um vai e vem entre cidades, encontros de personagens e acontecimentos inusitados. Lucky Luke prende o irmão das crianças, Rufus Kinker, o que faz com que as crianças fiquem sem ninguém para cuidar, por isso Lucky Luke é responsabilizado. Kinker é o filho de um assaltante de bancos que é dado como morto pelos Texas Rangers e pelos seus compartas, a gangue de Grubby Feller, personagem este que já havia enfrentado Lucky no álbum “A Escolta”, a 28º edição da série regular.



Luke visita as cidades de El Paso, Beaufort e Rubbisch Gulch, todas com suas placas engraçadas na entrada. Beaufort é comandada por um coronel do Exército Sulista, do qual todos respeitam, incluindo o Xerife que prende Lucky Luke e solta os bandidos amigos do tal Coronel. El Paso é onde fica a sede dos Texas Rangers, e a maioria das pessoas que frequentam a cidade usam estrelas.

E o Xerife de Rubbisch Gulch é engraçadíssimo. Tem na mesa uma pilha de cartazes de procurados, que ele diz estar organizado, mas é uma verdadeira bagunça. E ao final da história está apenas de pijama de dormir, no meio de toda confusão.



Um Lucky Luke “entre dois mundos”

Visualmente, Blutch faz uma escolha curiosa: seu traço é muito próximo do Lucky Luke clássico, mas nunca idêntico. A quadrinização é tradicional, a paleta de cores remete diretamente a Morris, e o desenho respeita os códigos da série. Ao mesmo tempo, há nuances de estilo próprio, especialmente na caricatura de personagens secundários e no uso do humor visual.



“Os Indomados” é o volume mais próximo da série clássica dentro de uma coleção pensada justamente para se afastar dela. Isso lhe dá segurança, mas também o torna excessivamente comedido. Blutch demonstra domínio absoluto do personagem e profundo conhecimento da escrita de Goscinny. Nos extras ele mesmo diz que era apaixonado pela série e que seu desejo era mesmo de homenagear a série, ao invés de propor algo totalmente diferente.



O resultado é um álbum que fica “no meio do caminho”: não é uma ruptura ousada, como se espera de uma leitura autoral, nem uma emulação perfeita do clássico. Para leitores que preferem abordagens mais suaves e respeitosas, isso pode ser um ponto positivo. Para quem busca versões verdadeiramente transformadoras, como as de Bonhomme (edição western que se leva à sério) ou Ralf König (que trouxe dois cowboys homossexuais), pode soar como uma oportunidade perdida.

Mas pra quem não costuma ler o cowboy, é ou não se preocupa com essa questão da edição ser um “Lucky Luke por...” vai amar a história de qualquer jeito. Ela é muito bem construída e tem uma crescente muito bem feita, amarrando todas as pontas ao final. As crianças trazem piadas muito engraçadas e os personagens coadjuvantes são hilários. Além de Lucky Luke e Jolly Jumper estarem impecáveis, do jeito que eles são. Luke querendo fazer justiça e Jumper com suas tiradas cômicas e ajudando o cowboy solitário nos principais momentos.



Uma edição ótima

A edição da A Seita é exemplar. Capa dura, um cuidado extremo na edição e um caderno extra com 24 páginas, com entrevistas, biografia, ilustrações e estudos preparatórios de Blutch.

E ainda inclue a história curta “Pecos Jim”, uma das primeiras obras de Blutch publicada na revista Fluide Glacial entre 1988 e 1990. Um trabalho editorial que não apenas valoriza a obra, mas também amplia sua leitura. Minha única ressalva é que não teve a tradução do nome do indígena que vem ao resgate das crianças em certo momento da história. 

O indígena Dull Spoon, não foi traduzido para Colher Vazia. Estes nomes engraçados também são gags típicas da série Lucky Luke, como também o nome das cidades, que geralmente não são traduzidos. Rubbisch Gulch por exemplo, seria algo como “Vale da Sujeira”.



E quem é Blutch

Blutch é o nome artístico de Christian Hincker, um desenhista e autor de histórias em quadrinhos francês nascido 1967 em Estrasburgo, França. Ele é amplamente reconhecido como um dos mais importantes e influentes autores de quadrinhos franco-belgas.

Começou a publicar suas primeiras histórias na revista Fluide Glacial no final dos anos 1980, com séries como Pecos Jim e Mademoiselle Sunnymoon. Depois trabalhou com outras publicações importantes como Lapin e À Suivre.




Blutch é conhecido por sua versatilidade artística, misturando humor, drama, surrealismo, autobiografia e experimentação gráfica em obras que frequentemente exploram temas sociais, culturais e pessoais.

Recebeu vários prêmios importantes, incluindo o Grand Prix de la Ville d’Angoulême (um dos mais prestigiosos do mundo dos quadrinhos) em 2009, consolidando sua influência no cenário mundial da bande dessinée - BD.

 Neste vídeo da Editora Dargaud, Blutch desenha Luke e as crianças:





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