Em Júlia #21 - Furo de Reportagem (Editora Mythos), Giancarlo Berardi assina o argumento e divide o roteiro com Giuseppe de Nardo e Maurizio Mantero. São três autores experientes que constroem uma trama bem arquitetada, tecnicamente sólida, mas cujo mistério se revela cedo demais, praticamente nas primeiras páginas. Os desenhos são de Giancarlo Caracuzzo.
A história começa quando Júlia Kendall é chamada para investigar cartas anônimas que ameaçam a vida de Shona Laszlo, uma atriz em clara decadência profissional. Pouco depois, Shona é encontrada morta, dando início à investigação que estrutura toda a edição.
Paralelamente, conhecemos Alvin Bloom, um fotógrafo igualmente em declínio. Logo em sua apresentação, tudo parece dar errado: o carro quebra, a câmera é roubada e ele chega atrasado a uma grande cena de crime, justamente no momento em que mafiosos se matam em um acerto de contas. Bloom acaba sendo contratado por David Picket, agente de Shona, para realizar um ensaio fotográfico com a atriz. Quando retorna para entregar as fotos, encontra Shona morta.
O tenente Webb, sempre atento, apreende com Bloom um rolo de filme com imagens do corpo da atriz, já morta, mas Bloom havia feito cópias. O resultado é previsível: as fotos estampam a primeira página do The Sentinel. A partir daí, Júlia precisa descobrir quem assassinou Shona e por quê.
A investigação se desdobra de
forma metódica e extensa. Ao lado de Júlia, Webb e o sargento Irving, o leitor
percorre todos os círculos da vida da atriz: governanta, familiares, ex-marido,
amante... Aos poucos, o roteiro constrói o retrato de uma mulher fragilizada,
sem oportunidades relevantes de trabalho e presa a relações desgastadas. Tudo
está ali, cuidadosamente apresentado.
O problema é que, desde o título da história e, sobretudo, desde a introdução de Alvin Bloom, o desfecho já se desenha com clareza. O leitor atento dificilmente se surpreende. As 130 páginas acabam pesando: mesmo quando surgem pistas que parecem desviar a investigação, a linha de conclusão permanece inalterada. É necessário ainda mais uma morte para que Júlia finalmente conecte os pontos e encerre o caso, algo que o leitor já havia feito há muito tempo.
Visualmente, Giancarlo Caracuzzo entrega um trabalho muito competente. O detalhamento das cenas e a clareza narrativa permitem que o leitor acompanhe e até antecipe a investigação, criando uma linha de raciocínio paralela à de Júlia. Esse jogo investigativo ajuda a sustentar o interesse até o fim, apesar das fragilidades do roteiro.
Curiosamente, apesar do título “Furo de Reportagem”, o tratamento à mídia é superficial. A imprensa surge mais uma vez como vilã abstrata, mas quase nunca vemos uma redação ou jornalistas em ação. Bloom, aliás, se aproxima muito mais da figura do “abutre” moderno, lembrando o protagonista de O Abutre (2014), filme em que Jake Gyllenhaal interpreta, ironicamente, Louis Bloom, um cinegrafista amador que explora tragédias para vendê-las a veículos sensacionalistas.
No fim, Furo de Reportagem é uma leitura sólida, bem desenhada e bem conduzida, mas que sofre por revelar cedo demais suas cartas. Falta ao mistério a surpresa que a premissa prometia e talvez uma edição mais enxuta tivesse feito toda a diferença.










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