Dylan Dog #375 – No Mistério

Leonardo Fraga
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Em 2017, Tiziano Sclavi publicou No Mistério (Dylan Dog #375), consolidando seu retorno definitivo ao personagem após quase uma década afastado da série. Depois de "Depois de um longo silêncio" (2016), obra de forte caráter autobiográfico, Sclavi entrega aqui uma história que amplia o tom intimista para abordar questões universais, como o destino, a existência e a morte.




“No Mistério” será publicada pela primeira vez no Brasil pela Editora Lorentz, que está com campanha aberta no Catarse. A edição que faz parte da “Nova Série” do personagem virá colorida como a edição original italiana e em uma edição dupla junto a história “Graphic Horror Novel: a sequência”.


O presságio




A trama começa de maneira aparentemente banal. Dylan caminha pela rua, joga uma moeda para um morador de rua e algo impossível acontece: a moeda cai em pé. O homem se apresenta como Nemo e diz que Dylan pode ser o único capaz de evitar acontecimentos terríveis que estão prestes a ocorrer. A partir daí, Nemo passa a surgir repetidamente, sempre com avisos enigmáticos e específicos: não pegar o elevador, não entrar no metrô, tomar cuidado com um avião. Dylan vai percebendo no decorrer da história, que estes presságios se concretizam em tragédias horríveis diante de seus olhos.



O tom é de crescente angústia. Quando Nemo afirma que o fim do mundo está próximo, o Investigador do Pesadelo se vê diante da seguinte questão agir ou não agir? Intervir no destino ou aceitar a inevitabilidade do caos?



Paralelamente, um assassino de terno preto e cabelo ruivo percorre a cidade matando brutalmente suas vítimas. Dylan se envolve na investigação para tentar deter a onda de mortes, muitas delas conectadas, direta ou indiretamente, às previsões de Nemo. A narrativa alterna momentos de suspense com cenas de violência, potencializadas pelo traço expressivo de Angelo Stano.



Stano que aqui entrega páginas impactantes, cheias de movimento e dramaticidade, enquanto a colorização de Giovanna Niro reforça o choque das tragédias: quedas, explosões, atropelamentos e assassinatos ganham uma dimensão quase apocalíptica. É um espetáculo visual que dialoga diretamente com o peso existencial do roteiro.



O mistério humano

Como sempre Sclavi aborda com maestria o horror sobrenatural que caminha lado a lado com a reflexão social. Os moradores de rua não são apenas cenário: têm voz, identidade e filosofia própria. Em uma das falas mais marcantes, um deles afirma a Dylan:

“Ser ou não ser. Eis o problema. Nós não somos.”




No Mistério é, acima de tudo, uma reflexão sobre o lugar do ser humano no mundo. Sobre o que significa existir, agir, escolhere desaparecer. A frase final de Dylan resume com precisão essa visão:

“Quando um homem morre, morre um universo.”




 Uma homenagem ao próprio passado

A história também funciona como uma grande auto-homenagem de Sclavi à sua trajetória, revisitando temas, imagens e ideias espalhadas por sua obra. O assassino montando uma sniper no alto de um prédio remete diretamente a Martin Mystère #51–52, as únicas histórias que Sclavi escreveu para a série, publicadas no mesmo ano de estreia de Dylan Dog.


Martin Mystère 51: Sette Uomini Venuti Dal Nulla. Roteiro de Tiziano Sclavi
com desenhos de A.M.Ricci



A presença de Angelo Stano nos desenhos evoca imediatamente a edição de estreia de Dylan Dog – O Despertar dos Mortos Vivos e sua importância para toda a trajetória do personagem.

No Mistério não é apenas mais uma aventura de Dylan Dog. É uma reflexão tardia, madura e melancólica de Tiziano Sclavi sobre sua própria obra e sobre os temas que sempre o perseguiram. Um quadrinho sobre o destino, o acaso, a responsabilidade e a fragilidade da existência humana. Intimista e grandiosa ao mesmo tempo, é um capítulo essencial para entender não só Dylan Dog, mas o próprio Sclavi diante do mistério que nunca deixou de investigar.




 

Outras referências:

A moeda que para em pé, já usada em O Fantasma de Anna Never;




Nemo, que em latim significa “Ninguém”, remete a História de Ninguém;


O elevador, lembrando Dylan Dog #250 – Elevador para o Inferno;




As previsões do futuro, semelhante ao que aconteceu em Dylan Dog #40 – Acontece Amanhã, onde as tragédias eram lidas no jornal um dia antes de acontecerem;


E o nome do vilão, Helmut Tod, remetendo a Doktor Terror. Sendo “Tod” simplesmente “Morte” em alemão.







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