Em Ondas: Surfe, Amor e Luto

Leonardo Fraga
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A HQ de estreia de AJ Dungo, “Em Ondas (2019), começou como um projeto acadêmico sobre a história do surfe e acabou se tornando um relato autobiográfico emocionante sobre o luto pela morte de sua namorada, Kristen, vítima de câncer ainda jovem. Ao longo da obra, o autor costura duas narrativas: de um lado, a trajetória de ícones do surfe como Duke Kahanamoku e Tom Blake. De outro, a história de amor, adoecimento e despedida vivida por ele e Kristen.

Essa estrutura espelhada reflete a própria proposta da HQ: mostrar como a vida se constrói em ciclos, avanços e recuos, assim como as ondas do mar. Para Dungo, o surfe surge como um espaço de consolo, reflexão e conexão emocional, um lugar simbólico onde é possível elaborar a dor e encontrar algum tipo de equilíbrio em meio ao caos.

Em Ondas foi publicado pela Editora Nemo em 2021, com tradução de Érico Assis.



Luto em uma narrativa fragmentada

O título, “Em Ondas” funciona como uma metáfora direta para o luto. Imprevisível, ele se manifesta em uma narrativa não linear. Memórias da juventude, do início do relacionamento e da convivência com a doença surgem misturadas a passagens históricas sobre o surfe.

A doença de Kristen, embora central, não é tratada de forma clínica ou detalhista. O foco não está nos procedimentos médicos, mas na maneira como ela enfrenta as limitações impostas pelo câncer. Mesmo após a amputação de uma perna e entre períodos de remissão e recaída, Kristen é retratada como alguém que “nunca desistiu”. O quadrinho a mostra surfando, pedalando, viajando e vivendo intensamente entre uma sessão de quimioterapia e outra. Quando o corpo já não permite certas atividades, isso não é apresentado como uma derrota espiritual.



Cor, ritmo e silêncio

A HQ é marcada por escolhas claras e simbólicas. Os flashbacks da história do surfe aparecem em tons quentes de sépia, enquanto o presente, ligado à história de Kristen, é banhado por azuis profundos. Essa distinção ajuda o leitor a se orientar no tempo e reforça a fluidez emocional da narrativa.

O traço de Dungo é minimalista, quase econômico, mas carregado de intenção. Personagens pequenos diante de paisagens amplas, ondas imensas ou fundos vazios comunicam sentimentos de impotência, silêncio e introspecção. As frequentes páginas duplas e os grandes espaços em branco criam uma sensação de pausa, como se a HQ convidasse o leitor a respirar entre um impacto emocional e outro. Entre uma onda e outra, antes da próxima série.





Carga autobiográfica e entrega

A edição de 376 páginas, os layouts experimentais e a carga autobiográfica deixam claro que se trata do primeiro “grande livro” de um autor disposto a deixar sua marca. AJ desenha com muito carinho as passagens com Kristen, colocando toda a memória e emoção nas imagens. Relembrando e registrando para sempre a vivência dos dois.

Alguns leitores podem estranhar a relação entre as duas narrativas separadas. Apesar de bem pesquisadas e interessantes, as passagens históricas sobre o surfe nem sempre dialogam de forma clara com a história de Kristen. Mas as duas tramas são ligadas pelo Surfe. Como a ligação que este esporte e a natureza fazem com a vida de milhares de pessoas.





História do surfe em quadrinhos

A outra trama que se desenrola é praticamente a história do surfe desde sua origem, em 1800 nas Ilhas Havaianas até os tempos modernos. É destacada em especial a história de Duke Kahanamoku e Tom Blake, responsáveis por levar um antigo ritual havaiano ao reconhecimento mundial.


Tom Blake e Duke Kahanamoku. 

Fonte: Spencer Croul Family Foundation.

Duke Kahanamoku, nascido no Havaí em 1890, é considerado o grande embaixador do surfe. Nadador olímpico e múltiplo medalhista, Duke utilizou sua fama internacional para apresentar o surfe ao mundo fora do Havaí, especialmente nos Estados Unidos, na Austrália e na Europa. Para ele, o surfe não era apenas um esporte, mas uma expressão cultural profunda, ligada à espiritualidade, à liberdade e à relação entre o homem e o oceano.

Tom Blake, por sua vez, foi um verdadeiro inovador. Surfista, engenheiro e historiador do esporte, Blake revolucionou o surfe ao desenvolver pranchas mais leves e funcionais, (até então se usava pranchas de madeira maciça), introduzir a quilha fixa e ajudar a documentar a história e a cultura do surfe havaiano. Seu trabalho foi fundamental para transformar o surfe em uma prática mais acessível e tecnicamente avançada.

A relação entre Duke Kahanamoku e Tom Blake foi marcada por admiração e colaboração. Blake via Duke como uma figura quase mítica, a personificação do espírito do surfe, enquanto Duke reconhecia em Blake alguém capaz de preservar e expandir o legado do esporte. Juntos, eles ajudaram a construir as bases do surfe moderno, equilibrando tradição, inovação e respeito pela cultura havaiana.




Comunicação cristalina

“Em Ondas” é um livro honesto, delicado e emocionalmente potente. Suas melhores sequências comunicam, com poucas palavras e imagens precisas, o vazio, a tristeza e a beleza silenciosa que acompanham a experiência do luto. A leitura se assemelha a remar ao lado de um amigo: alguém que não oferece respostas fáceis, mas compartilha o percurso e te faz olhar o horizonte.

Leitura indicada para todo tipo de leitor, mas especialmente significativo para quem já enfrentou perdas ou busca compreender como histórias alheias podem ajudar a atravessar momentos difíceis. É um convite a mergulhar no mar sabendo que, no caminho, algumas ondas serão inevitavelmente mais fortes que outras.







Surfista e Ilustrador

AJ Dungo é um surfista, ilustrador e autor de quadrinhos nascido em Fort Myers, na Flórida. Ele cresceu no sul da Califórnia, em uma família de enfermeiros, e desenvolveu desde cedo interesses artísticos e pelo surfe, influências que marcaram toda sua obra.

Antes de se tornar conhecido no mundo dos quadrinhos, ele trabalhou como designer para uma empresa de calçados e também atuou como ilustrador freelance para marcas e veículos de grande destaque, como Nike, The New York Times, The New Yorker, Bleacher Report, Chronicle Books, The Wall Street Journal, The Atlantic e o Museu de Arte Moderna de São Francisco.

Atualmente, AJ Dungo vive em Los Angeles e continua trabalhando como ilustrador. Sua última Graphic Novel, com roteiro de Jarrett Dapier, “Wake Now in the Fire”, tem lançamento previsto para abril de 2026.  


Vídeo produzido pela Editora Casterman na oportunidade da publicação na França, mostrando uma entrevista com AJ e imagens de Kristen.




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