Dylan Dog – Planeta dos Mortos Vol.1: Zumbis, política e o crepúsculo da humanidade

Leonardo Fraga
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 “Planeta dos Mortos” é o ponto de partida de uma ousada minissérie em oito edições que apresenta um Dylan Dog envelhecido, já com seus 50 anos, mergulhado em um mundo à beira do colapso zumbi. Mas esta não é apenas mais uma história sobre
mortos-vivos:
aqui, o horror se mistura com drama humano, crítica social e dilemas morais profundos.




Publicado pela Editora Panini, a edição traz duas histórias. Logo na primeira, “Adeus, Groucho” (originalmente publicada em Dylan Dog ColorFest #10), somos confrontados com a chocante revelação de que a epidemia teve início por causa do próprio Dylan. O roteiro, assinado por Alessandro Bilotta, conduz com maestria um capítulo de tom melancólico e reflexivo, que marca o fim de uma era para o protagonista e, como o título indica, a despedida de seu inseparável companheiro Groucho.




A segunda parte da edição, “O Crepúsculo dos Vivos-Morrentes”, mergulha de cabeça nas consequências desse evento e apresenta o mundo reconfigurado diante da nova realidade zumbi. Bilotta, novamente no roteiro, constrói um cenário complexo e surpreendentemente original. Em vez do habitual apocalipse sangrento, o foco aqui é a adaptação social e política a uma nova espécie convivendo entre os vivos.




Há uma eleição em andamento, e as propostas são perturbadoras: um dos candidatos deseja colocar focinheiras nos zumbis e reinseri-los como servos na sociedade, enquanto outro grupo defende sua humanização, propondo que vivam em áreas isoladas. Há ainda radicais que exigem que os zumbis sejam libertos para atacar humanos. Uma alegoria sobre polarização política e ética na gestão de crises.



Nesse cenário distópico, encontramos um Dylan Dog sombrio, alcoólatra e profundamente deprimido. Já não é mais o sedutor de outros tempos, ignorado pelas mulheres e atolado pela culpa, mas é convidado a liderar uma unidade de contenção dos mortos-vivos, cujos membros, ironicamente, se vestem como ele.

O Inspetor Bloch também está presente, agora aposentado e lidando com o avanço do Alzheimer. Ainda assim, seus lampejos de lucidez o transformam em uma das figuras mais comoventes e inteligentes do arco.

Visualmente, a obra tem excelentes desenhos. A primeira história conta com os desenhos de Paolo Martinello, enquanto a segunda é ilustrada por Daniela Vetro, que acerta em cheio no tom e na nova caracterização de Dylan, adaptado ao peso da idade.

E como se não bastasse, “Planeta dos Mortos” ainda oferece momentos marcantes: um pai que esconde seu filho zumbi em casa; muralhas que dividem vivos e mortos; uma sociedade dividida entre repressão, convivência forçada e medo constante. Há até um toque de humor mórbido: a própria “Morte”, agora desempregada, precisa fazer bicos para sobreviver.



Com roteiro afiado, camadas de crítica social e uma abordagem inusitada sobre o apocalipse, “Dylan Dog – Planeta dos Mortos” promete ser uma das sagas mais instigantes e maduras do personagem. Um verdadeiro divisor de águas na mitologia do Investigador do Pesadelo que pode ser aproveitado por novos e antigos leitores do personagem.


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