Entre as muitas criações geniais de Naoki Urasawa, como Monster, Pluto ou 20th Century Boys, Billy Bat talvez seja a mais ousada, metalinguística e enigmática. Publicado no Brasil pela Panini Comics, com tradução de Caio Suzuki, o mangá começa com uma premissa simples, mas rapidamente se revela um dos thrillers mais complexos e ambiciosos da carreira do autor.
Tudo começa com um quadrinho dentro do mangá, literalmente.
O protagonista, Kevin Yamagata, é um cartunista nipo-americano que ganha a vida
nos Estados Unidos do pós-guerra com sua série “Billy Bat”, estrelada por um
morcego detetive. No entanto, ao descobrir que talvez tenha plagiado
inconscientemente um personagem que viu no Japão durante o serviço militar,
Kevin parte para investigar suas próprias memórias. Assim acaba mergulhando
numa teia de segredos, assassinatos, manipulações históricas e forças
invisíveis que moldam o mundo.
Logo de início, Billy Bat apresenta o que será uma constante ao longo da série: reviravoltas, mudanças de foco e saltos temporais. Ao passar da história a narrativa já começa a pular entre personagens misteriosos, conspirações globais e figuras históricas, algumas reais, outras fictícias, que se entrelaçam de maneira brilhante. Urasawa e seu co-roteirista Takashi Nagasaki constroem uma história de camadas, onde nada está onde parece estar.
Pode parecer confuso (e é, em alguns momentos), mas essa confusão é proposital e recompensadora. É o tipo de obra que exige atenção e engajamento, e oferece como recompensa uma leitura profunda e provocadora.
O protagonista Kevin Yamagata é apenas o primeiro de muitos personagens marcantes. Vamos acompanhamos um elenco rotativo, com figuras que vão e voltam, muitas vezes conectadas por eventos aparentemente aleatórios, mas que compõem um plano maior. Personagens reais como Sadanori Shimoyama, neste primeiro volume, dividem espaço com personagens fictícios que carregam dilemas humanos profundos.
O que aconteceu na vida real com o “Presidente
Shimoyama", inclusive, é usado na trama por Urasawa. Shimoyama foi o
primeiro presidente das Ferrovias Nacionais Japonesas, cujo desaparecimento e
morte em 1949 são conhecidos como o Incidente de Shimoyama. Ele desapareceu a
caminho do trabalho e seu corpo foi encontrado na Linha Jōban no dia seguinte. Urasawa
usa este acontecimento para compor sua trama, como faz em vários outros momentos
da série, até envolvendo Lee Harvey Oswald, o assassino do presidente Kennedy
A história só fica mais complicada à medida que salta no tempo e mais personagens misteriosos são introduzidos. Pode parecer confuso no começo, mas ao final tudo que precisa ser explicado é devidamente esclarecido. O enredo é muito interessante, e as muitas reviravoltas são sempre envolventes.
Visualmente, Billy Bat é um espetáculo. Urasawa emprega sua
já conhecida precisão no traço, expressividade facial e domínio do ritmo para
guiar o leitor em uma narrativa que salta entre gêneros: do suspense político
ao drama filosófico, da ação ao mistério sobrenatural. A obra também brinca com
o próprio formato do mangá: trechos dos quadrinhos de Kevin aparecem inseridos
na narrativa, com leitura ocidental (da esquerda para a direita), criando
camadas visuais e temáticas.
A diagramação, como sempre nas obras de Urasawa, é cinematográfica. Transições suaves, cliffhangers inteligentes e uso de metáforas visuais elevam a leitura a um nível estético raro nos mangás.
Por trás do mistério e da metalinguagem, Billy Bat é uma
reflexão sobre o poder das histórias e como elas moldam sociedades, crenças e o
próprio curso da humanidade. A história se aprofunda em discussões sobre
manipulação histórica, livre-arbítrio, destino e até religião. Pode soar
grandioso demais, mas Urasawa sabe conduzir tudo isso com o equilíbrio entre
tensão narrativa e questionamento existencial.
Billy Bat não é uma leitura fácil. Exige atenção, maturidade e disposição para embarcar em uma trama que se constrói aos poucos. Mas para quem aceita o desafio, o retorno é imenso. É um mangá que não subestima o leitor, e entrega uma experiência literária, filosófica e artística riquíssima.
Para os fãs de Monster e 20th Century Boys, é mais um
testemunho da genialidade de Urasawa. Para quem nunca leu nada dele, talvez não
seja o ponto de partida ideal, mas, sem dúvida, é uma das obras mais recompensadoras
da carreira do autor.
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