Wolverine já percorreu o mundo inteiro em suas aventuras, mas poucas viagens foram tão inesperadas quanto a que ele fez ao Brasil em “Wolverine: Saudade”, publicada originalmente em 2006. Na história, Logan troca cenários tradicionais dos X-Men por um território urbano real e simbólico: o bairro do Pirambu, em Fortaleza. Entre violência, solidariedade e choque cultural, o mutante canadense aprende uma palavra profundamente brasileira e impossível de ser traduzida completamente: saudade.
A edição chegou ao Brasil pela Panini em formato europeu, com 52 páginas, e hoje é um item raro de colecionador. Mas, mais do que uma curiosidade editorial, a HQ se tornou um marco: poucas cidades brasileiras podem dizer que já foram retratadas oficialmente em um quadrinho da Marvel Comics. A outra cidade que Wolverine já visitou no Brasil foi o Rio de Janeiro em "Wolverine: Rio de Sangue" (publicada pela Pandora Books em 2001) que mostra Logan de férias durante o Carnaval. Com roteiro de Joe Casey e arte de Oscar Jimenez, apresentando um retrato caótico e sobrenatural da cidade.
O renascimento da Marvel e a aposta em autores internacionais
Para entender o surgimento de
Saudade, é preciso voltar ao início dos anos 2000. Quando Joe Quesada assumiu
como editor-chefe da Marvel. A editora atravessava uma crise após ter chegado a
decretar falência: queda nas vendas, excesso de títulos e personagens
desgastados.
A resposta foi uma reformulação editorial que apostava em histórias mais maduras e em novos talentos. Foi nessa fase que surgiram projetos como Marvel Knights, o selo Max, o universo Ultimate e grandes sagas como Dinastia M e Guerra Civil. Quesada também abriu espaço para criadores de fora dos EUA, incluindo artistas europeus.
Dessa ideia surgiu o projeto Marvel Europa, mas teve vida curta, apenas duas revistas. Demolidor e Capitão América: Dupla Morte (Panini, 2007) com os medalhões da editora italiana Sergio Bonelli Tito Faracci (roteiro) e Claudio Villa (desenhos). E também, Wolverine: Saudade (Panini, 2007), com roteiro de Jean-David Morvan e arte de Philippe Buchet, dupla consagrada pela série franco-belga Sillage.
Morvan destacou em uma entrevista que teve a ideia de criar uma aventura no Brasil, após descobrir a comunidade cearense de Pirambu navegando pela internet e conversando com um amigo na França. Morvan percebeu que o bairro era um espaço rico em humanidade, contrastes e narrativas possíveis. Mas somente em 2015 o autor conheceu realmente o lugar ao vir ao Brasil, onde conversou com moradores e sentiu a atmosfera real de Pirambu. “Wolverine vive nos EUA, uma sociedade muito fechada. Pensei que ele poderia ir ao Brasil, um lugar cheio de qualidades e problemas. Os meninos de rua não são bons nem maus, os inimigos também não, e mesmo Wolverine não é de todo bonzinho.”
Philippe Buchet tem um belíssimo traço, mas sua pesquisa sobre o Brasil peca bastante. Muitos personagens lembram mexicanos. Locais e meios de transporte remetem mais a um Caribe genérico, do que o Brasil. Aparecem morros na paisagem, apesar de Fortaleza ser plana. Mas a arte tem grandes momentos como a imagem aérea do Pirambu e o detalhamento dos personagens e objetos da cidade que enriquecem demais as páginas. Seu Logan é feio, baixo e suas garras tem curvas arredondadas como facas, e cortam que é uma beleza.
Wolverine em Fortaleza
A história se passa há alguns
anos atrás. Logan estava desembarcando com sua moto em Fortaleza, para curtir
umas férias pelo nordeste brasileiro quando é contatado pelo Professor Charles Xavier,
sobre a presença de um mutante próximo ao local em que Wolverine estava. Xavier
pede que Logan localize e o recrute para a Escola Mutante onde vivem os X-Men.
Surge então André
Mexer, conhecido como Xexéu, um adolescente que vive nas ruas e possui o poder
de desequilibrar fisicamente qualquer pessoa. Ao fugir com seus amigos de uma
espécie de Esquadrão da Morte, Xexéu rouba a moto de Wolverine usando seus
poderes mutantes. Logan consegue rastrear e encontrar sua moto junto aos
garotos, quando estes são atacados pelo Esquadrão. Wolverine salva os jovens e
cria um vínculo inesperado com eles.
Uma curiosidade é que o nome Xexéu vem da ave brasileira (Cacicus cela) que tem cores amarelo vibrante, preto ou azulado. Lembra do uniforme de algum X-Men aí?
Os garotos levam Logan ao
Pirambu, onde ele conhece o bairro, participa de uma festa local e vive
momentos raros de leveza. Mas a paz dura pouco: Wolverine é emboscado, baleado,
espancado e jogado ao mar, sobrevivendo graças ao fator de cura e a uma ajuda
mística que mistura referências a Iemanjá e sereias. Buchet aqui não poupou
violência, nem das garras de Wolverine que cortam e muito bem (me repetindo,
mas cortam muito mesmo) e das balas que destroem o mutante de forma chocante.
Um dos momentos mais tristes é quando Xexéu é sequestrado e outras crianças são executadas, lembrando tragédias reais como a Chacina da Candelária (1993) e a violência periférica que marca o Brasil.
Pai João, exploração e um vilão
controverso
A história revela que o mutante
detectado por Xavier não era Xexéu, mas sim um curandeiro chamado Pai João (Kuhrra
Daizonest no original), inspirado no médium João de Deus, que na época era
famoso internacionalmente, figura que mais tarde se tornaria alvo de graves
denúncias e condenações.
O vilão sustenta seus “milagres”
drenando energia de jovens mutantes vulneráveis, que são sequestrados pelo Esquadrão da Morte. Depois de usá-los, os jovens são descartados em uma
mina que remete visualmente à Serra Pelada, para que não possam mais ser
encontrados.
Wolverine enfrenta João em uma luta graficamente muito interessante. Os poderes do vilão permitem que ele manipule biologicamente o corpo humano, conseguindo extrair músculos para fora do braço, por exemplo. Buchet cria imagens de muita agonia e dor, apesar de sabermos que o fator de cura de Wolverine dará um jeito.
Após vencer, Logan resgata Xexéu,
mas o garoto foi lobotomizado, e seu destino final no Instituto Xavier,
trabalhando como zelador, soa frustrante e anticlimático.
A história avança anos à frente, (na época dos X-Men de Grant Morrisson), quando Wolverine relembra destes momentos em que esteve em Fortaleza, onde aprendeu o verdadeiro sentido da palavra “Saudade” ao sentir falta dos momentos bons que passou com os garotos e também dos que poderia ainda ter vivido com eles.
Fortaleza no universo Marvel, mas
a que custo?
Anos após a publicação, o Pirambu foi
apontado pelo IBGE como uma das maiores favelas do Brasil, com graves problemas
estruturais. Leitores cearenses têm sentimentos ambíguos sobre a HQ: por um
lado, ela coloca Pirambu no mapa do universo Marvel. Por outro, retrata o
bairro quase exclusivamente como zona de guerra, de forma exagerada e
distorcida.
O Pirambu é um polo cultural, comercial e marítimo, uma região belíssima e muito mais complexa do que a visão violenta apresentada. Mesmo com suas falhas de pesquisa e estereótipos visuais, “Wolverine: Saudade” permanece como uma raridade curiosa: um fragmento inesperado de Fortaleza registrado no mainstream mundial dos quadrinhos.
Sem a nossa percepção local como
brasileiros, é uma boa história que traz momentos bem interessantes para a
história de Wolverine, além de ter uma ótima ação e momentos grotescos de
violência.

















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