Hirayasumi expande a força dos coadjuvantes em segundo volume sensível e envolvente

Leonardo Fraga
por -
0



Já falei do primeiro volume de Hirayasumi AQUI, e não tinha como deixar passar as edições seguintes sem comentar também. Esse é aquele tipo de mangá “gostoso” de ler, que não depende de grandes acontecimentos, mas sim da beleza das pequenas coisas do dia a dia. E, no segundo volume, essa proposta não só continua firme como fica ainda mais refinada, consolidando a obra de Keigo Shinzo como uma das leituras mais sensíveis do cotidiano que temos hoje.




Seguimos acompanhando Hiroto Ikuta, um homem de 29 anos que desafia expectativas sociais ao viver sem emprego fixo, sem grandes ambições materiais e, ainda assim, plenamente satisfeito com a vida. Ele mora em uma casa antiga que herdou de uma senhora, a “vovó” Hanae Wada e divide esse espaço com sua prima, Natsumi, que se muda para Tóquio para estudar arte.





Nascimento da mangaká Natsumi

 

Aqui, Natsumi ganha ainda mais destaque. Sua amizade com Akari, colega de faculdade, se desenvolve de forma muito natural. As duas passam a trabalhar juntas em um restaurante chinês, o que aproxima ainda mais essa relação. E é nesse convívio que Natsumi começa a se abrir, compartilhando seu sonho de se tornar mangaká.




Ela dá seus primeiros passos de verdade: envia uma história para um concurso e acaba sendo publicada. Pode parecer algo simples, mas o mangá trata esse momento com o peso emocional certo. Acompanhamos não só a conquista, mas também todo o processo, as dúvidas, as inseguranças e a ansiedade.



É muito interessante ver esse “nascimento” da artista acontecendo. Natsumi, que no começo parecia imatura e até ingrata em alguns momentos, vai ganhando camadas. Morar longe de casa, lidar com responsabilidades e encarar seus próprios erros fazem com que ela amadureça de forma orgânica. Nada forçado, tudo no tempo dela e isso faz toda a diferença.




Hideki e o medo de mudar

 

Outro personagem que ganha espaço é Hideki, melhor amigo do Hiroto. Ele está prestes a ser pai, mas claramente não sabe muito bem como lidar com isso. Em vez de abraçar essa nova fase, tenta se agarrar à vida que levava antes.



Hiroto, com aquele jeito tranquilo mas direto, dá uns bons “choques de realidade” no amigo. E funciona. Tem uma cena muito boa em que Hideki dá carona para Natsumi, e os dois acabam conversando sobre o passado de Hiroto, incluindo o motivo pelo qual ele largou a carreira de ator.





Esse ponto é aprofundado em um flashback bem bonito com a vovó. Vemos os dois assistindo a um filme estrelado pelo próprio Hiroto, e ele explicando por que desistiu da carreira: simplesmente não conseguia lidar com as pressões da profissão. Não era pra ele. É um momento simples, mas que diz muito, tanto sobre o personagem quanto sobre a relação dos dois. Fica claro que o laço entre os dois não surgiu do nada, e ajuda a entender por que ela confiou sua casa a ele.


 

Yomogi rouba a cena

 

Se tem alguém que realmente brilha neste volume, é Yomogi. A corretora imobiliária que vive esbarrando com Hiroto funciona quase como um contraponto direto ao estilo de vida dele. Ela tem uma carreira sólida, uma vida aparentemente estruturada… mas só na superfície. Porque, por dentro, dá pra ver que tem algo fora do lugar. E isso fica ainda mais evidente quando ela entra em contato com o Hiroto, alguém que vive com muito menos, mas parece muito mais satisfeito.



O reencontro dos dois, logo no começo do volume, é cheio de constrangimento. Ela vai até a casa dele por questões de trabalho, mantém o profissionalismo, mas o clima é estranho. E Hideki e Natsumi, claro, percebem na hora que tem algo ali e ficam só observando, curiosos.



A dinâmica entre Hiroto e Yomogi é feita de pequenos encontros e desencontros. Tem um momento ótimo em que ele a convida para almoçar, ela claramente quer ficar (a fome entrega), mas decide ir embora mesmo assim. É nesse tipo de detalhe que Hirayasumi acerta em cheio: relações que vão sendo construídas aos poucos, sem pressa, sem exageros, mas cheias de significado.

 

Festival de Tanabata: cotidiano que vira espetáculo

 

O reencontro entre Hiroto e Yomogi mais marcante acontece durante o Festival de Tanabata, que reúne praticamente todo o elenco. E aqui o mangá também brilha visualmente. Os detalhes são incríveis: os quimonos de Natsumi e Akari, as decorações feitas à mão, o movimento das pessoas… tudo contribui para criar um ambiente vivo. Até coisas simples, como mensagens de celular, recebem atenção especial.



Mais do que um pano de fundo, a cidade funciona quase como um personagem. Hiroto enxerga Tóquio de forma leve, como um espaço de possibilidades. Já outros personagens sentem o peso da cidade, como algo opressivo. Essa diferença de percepção enriquece muito a narrativa.

É durante esse festival que Yomogi começa a rachar. Descobrimos que o gato dela, que vivia com sua mãe, morreu recentemente. E esse detalhe, aparentemente pequeno, carrega um peso emocional enorme.



Quando Hiroto puxa conversa de forma leve, sem saber do ocorrido, acaba tocando numa ferida aberta. E ela explode. Desconta tudo nele. Mas o mais interessante não é a explosão em si, e sim o que vem depois. Porque isso força Yomogi a encarar sentimentos que ela vinha evitando. O pedido de desculpas que vem depois não resolve tudo, mas mostra que algo mudou. Uma barreira caiu. E isso já é muita coisa em se tratando da personagem.



O que é “lar”, afinal?

 

Um dos temas mais fortes desse volume é a ideia de lar. E não só como espaço físico, mas como sentimento. Yomogi aparece sozinha em um apartamento moderno, cercada pelas luzes da cidade, uma imagem bonita, mas fria. Em contraste, suas lembranças a levam para momentos simples, na casa da família, com afeto de verdade.



Hiroto e Natsumi, vivendo numa casa antiga, meio bagunçada, dividindo um bolo amassado e rindo, transmitem algo completamente diferente: calor, conexão, pertencimento. E aí o mangá faz aquela pergunta silenciosa que fica com o leitor: o que é lar pra você?

O volume fecha reforçando uma ideia muito bonita: as memórias, principalmente as boas, ajudam a gente a seguir em frente. Natsumi desenhando no presente ecoa a criança que mostrava seus mangás pro primo. Hideki lembra da juventude com Hiroto e começa a repensar sua vida adulta e Yomogi revive momentos com seu gato e sua família.

Não é nostalgia vazia. É reconhecer que essas experiências moldam quem a gente é.




A força do simples

 

No fim das contas, o segundo volume de Hirayasumi reafirma por que este slice of life funciona tão bem. Não tem grandes reviravoltas, nem drama exagerado. O que tem é vida acontecendo. Com um traço delicado e uma narrativa paciente, Keigo Shinzo constrói uma história sobre pertencimento, amadurecimento e propósito. Personagens imperfeitos, em momentos diferentes da vida, tentando cada um do seu jeito encontrar seu lugar.




E talvez o maior mérito do mangá seja esse: em um mundo acelerado, ele convida o leitor a desacelerar. A prestar atenção. A sentir. Porque, no fim, é nas coisas mais simples que mora o que realmente importa.



 


 

Postar um comentário

0Comentários

Vamos lá pessoal. Sua opinião é muito importante. Tem Preguiça Não de comentar.

Postar um comentário (0)