Morgana é um episódio incomum, diferente não apenas dentro da série Dylan Dog, mas também no panorama dos quadrinhos em geral. À primeira vista, pode parecer uma história caótica, desconexa, quase sem sentido. No entanto, observada com atenção, revela-se uma trama surpreendentemente coesa, instigante e carregada de significados, com desdobramentos que continuam ecoando até hoje no universo do personagem.
Com roteiro de Tiziano Sclavi e desenhos de Angelo Stano, a história foi publicada originalmente em Dylan Dog #25 (1988). Posteriormente, foi republicada na coleção “O Dylan Dog de Tiziano Sclavi #12”, colorida em um tratamento especial de estética retrô pelo estúdio GFB Comics e Luca Bertelè. Esta edição serve de base para esta resenha. No Brasil, Morgana saiu pela Conrad em 2002 e retorna em fevereiro de 2026 no Omnibus de Dylan Dog da Editora Mythos, volume 5.
As Capas de Morgana
A capa da coleção “O Dylan Dog de
Tiziano Sclavi” é assinada por Gigi Cavenago e dialoga visualmente com o traço
clássico de Stano. Morgana ocupa o primeiro plano, enquanto Dylan surge como
sombra, figura secundária. A escolha não é casual: desde a capa, fica claro que
o centro emocional e simbólico da história não é Dylan, mas ela.
Já a capa original de 1988, que
também estará presente no omnibus da Mythos, foi ilustrada por Claudio Villa e
se inspira diretamente em A Pietà, escultura realizada por Michelangelo entre
1498 e 1499. A obra retrata a Virgem Maria segurando o corpo de Cristo após a
crucificação, uma das imagens mais emblemáticas do Renascimento.
A referência iconográfica da Pietà foi utilizada diversas vezes em capas de histórias em quadrinhos. Exemplos clássicos incluem The Uncanny X-Men #136, com Ciclope segurando Jean Grey ao final da Saga da Fênix Negra, e Crise nas Infinitas Terras #7, com Superman carregando o corpo da Supergirl.
Há ainda a capa de Morgana produzida por Mike Mignola para a edição americana, publicada pela Dark Horse Comics em 1999. Esta foi publicada no Brasil pela Conrad. Àquela altura, Mignola já estava plenamente consolidado como criador de Hellboy. Seu estilo minimalista e expressionista, marcado por sombras chapadas e forte influência do folclore europeu e horror gótico, encontrava em Dylan Dog uma afinidade estética quase natural.
A história: sonho, pesadelo ou quadrinho dentro do quadrinho?
A história começa com a médium
Madame Trelkovski, que faz aqui sua estreia na série surgindo de surpresa na
casa de Dylan logo pela manhã. Ela o adverte sobre a aproximação de um horror
absoluto e, ao mesmo tempo, o repreende por ter faltado à sessão espírita da
noite anterior em sua casa.
Paralelamente, uma jovem misteriosa chamada Morgana aparece como se viesse do nada, viajando de trem em direção a Londres. Sua trajetória é marcada por transições abruptas: ora estamos em um mundo apocalíptico povoado por mortos-vivos, ora retornamos à realidade cotidiana.
Publicada em comemoração aos dois
anos da série, a edição reúne novamente os autores da edição de estreia de
Dylan Dog, “O Despertar dos Mortos-Vivos”, e traz de volta também o terrível
Xabarás, com uma revelação bombástica: ele afirma ser o pai de Dylan Dog, que
recusa-se a acreditar, e Sclavi mantém esse mistério em suspenso por décadas,
até a edição nº 100, “A História de Dylan Dog”.
Morgana é assombrada por
pesadelos com mortos-vivos. Parece inocente, perdida, apaixonada por alguém
cuja identidade mal compreende, sentimento que Dylan também compartilha. Aos
poucos, descobrimos que ela foi uma das vítimas de Xabarás no primeiro número da
série. Seu amor por Dylan remonta a trezentos anos, desde o instante em que o
viu pela primeira vez.
Sclavi semeia perguntas
enigmáticas que ampliam o mito do personagem: quem é Dylan Dog, afinal? Uma
reencarnação? Um morto-vivo consciente como Morgana? Um ser imortal condenado a
atravessar os séculos?
No centro da trama surge ainda o cartunista Crandall Reed, nada menos que uma versão ficcional do próprio Angelo Stano. A pedido de Sclavi, Stano desenha Reed à sua própria imagem. O artista relembra com humor: “Começamos a fazer essa história sem saber como ela terminaria. Era uma técnica que Tiziano usava com frequência, mas em Morgana isso se nota mais do que de costume. Foi uma surpresa quando ele me pediu que desenhasse Reed semelhante a minha imagem. Maior ainda quando tive que me desenhar dando um beijo de língua em Trelkovski e, depois, recebendo um tiro na cabeça. Cheguei a pensar que Tiziano tinha algo contra mim!”
“O roteiro me foi entregue em blocos de quinze páginas, e só durante a realização percebi as terríveis maldades que Sclavi havia reservado ao personagem!”, relata Stano. Reed é atormentado pelas mesmas visões que Morgana e, num surto criativo, começa a desenhar uma HQ premonitória em que Morgana e Dylan são protagonistas. É como se estivéssemos diante de uma história dentro da história, um jogo de espelhos narrativo. Em determinado momento, o próprio Dylan questiona:
“E se tudo isso for apenas uma
história em quadrinhos?”
Este é um aspecto inovador em
Morgana explorando a dimensão metalinguística da história. Dentro da própria
narrativa, a trama parece se refletir e comentar sobre si mesma. O quadrinho
torna-se objeto dentro do quadrinho. Personagens leem, interpretam e vivenciam
eventos que parecem se repetir ou se reescrever. Essa estrutura transforma
Morgana em uma obra que não apenas conta uma história, mas discute o próprio
ato de narrar.
A narrativa se fragmenta em múltiplas versões dos acontecimentos: em uma, Morgana mata Dylan; em outra, Groucho mata Morgana; e há ainda uma terceira, em que ambos sobrevivem. A mensagem é clara: a realidade, como um quadrinho, pode ser moldada ao gosto de quem a escreve, como se um autor divino estivesse desenhando o destino de seus personagens.
Se esses mundos nascem da mente
perturbada de um cartunista, pouco importa. O essencial é que Dylan Dog é uma
série estruturada como um pesadelo: pode se repetir, dobrar-se sobre si mesma,
ser um sonho dentro de outro, ou tomar rumos completamente inesperados.
Sclavi frequentemente incorpora
referências culturais às suas histórias, e em Morgana isso se manifesta com a
inclusão da canção napolitana do século XIX (1839), “Te voglio bene assaje”,
com letra atribuída a Raffaele Sacco e música tradicionalmente creditada a
Gaetano Donizetti.
A música funciona como elo atmosférico: Dylan e Morgana ocupam o mesmo espaço físico, mas parecem existir em planos distintos, conectados apenas pelo som que ecoa. É uma solução narrativa sofisticada, embora Stano a considere absurda. “Sempre achei aquela sequência absurda… Não sei explicar o porquê… A mais absurda de todas!”, comenta em entrevista nos extras da edição.
"Te voglio bene assaje" foi imortalizada pela voz de Luciano Pavarotti.
Angelo Stano. Clássico e único
O trabalho gráfico de Stano é
notável. Seu estilo cinematográfico explora ângulos e enquadramentos incomuns
para acentuar a atmosfera sombria. Seu estilo privilegia expressões faciais e
atmosfera emocional, evitando excesso de detalhes que possam desviar o foco da
narrativa.
Stano consegue transmitir
inquietação, melancolia e ambiguidade com poucos traços, reforçando o caráter
introspectivo da história. O desenhista explica que em “O Despertar dos Mortos
Vivos” adotou um estilo diferente, com o uso de meios-tons, cinza e sombras
pesadas e em Morgana mudou isso para linhas finas e claras. Em Morgana explorou o uso de riscos pequenos para destacar algumas sombras.
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| Angelo Stano / Crandall Reed |
“O motivo da mudança é puramente técnico. O número #01 havia sido impresso com duas películas sobrepostas, e assim os cinzas ficaram pesados demais. Admito que aquele resultado conferia aos desenhos um charme particular. No entanto, não fiquei satisfeito. Também graças aos conselhos de Decio Canzio, então diretor-geral da Sergio Bonelli, abandonei os cinzas em favor de uma linha mais limpa, sem saber que Morgana seria impressa com película simples”, exclama Angelo, sorrindo e acrescentando: “Nada dava certo para o Crandall Reed!”
Em entrevista, Angelo Stano
explica que Morgana deveria se parecer com a atriz inglesa Julie Crhistie, era
a intenção de Tiziano Sclavi. Stano fez então alguns testes, no entanto não
conseguiu chegar a um rosto bom o suficiente, graficamente credível. “Então eu
procurei algo com uma personalidade mais mediterrânea, morena e de cabelos
encaracolados, sem tomar nenhuma atriz como modelo. E eu acho que isso
convenceu o próprio Sclavi e proporcionou um relacionamento mais próximo com a
personagem, a tornando mais real”, ressaltou.
Outra característica que humaniza e torna Morgana uma personagem tão crível, é que ela constantemente usa a expressão “ccipicchia”, uma aferese (supressão da parte inicial da palavra) de “accipicchia”. Essa expressão italiana pode expressar surpresa, espanto, ou frustração como um “uau”, “puxa”, “céus”. Na edição da Conrad ela foi traduzida como “Oxa”.
Stano também comenta nos extras que Morgana representa as eternas contradições na relação entre Dylan Dog e as mulheres. Dylan a encontra no presente, mas ela vem do passado, ou talvez do pesadelo. Trata-se de um ser inatingível e, por isso, incrivelmente fascinante”, exclama Angelo.
Embora ainda não totalmente
definida, diferente da Morgana que reapareceria no número 100, “A História de
Dylan Dog”, a personagem já surge aqui como força determinante na construção da
continuidade da série. O mesmo vale para Xabarás, cuja importância futura é
apenas insinuada. Como mencionado por Stano, Sclavi possivelmente ainda não
tinha todos os caminhos traçados, mas plantava sementes que moldariam décadas
de narrativa.
O impacto e a consagração
Embora muitos leitores não tenham
compreendido de imediato a abordagem experimental de Morgana, a HQ acabou se
consagrando como um dos episódios mais marcantes da série. Um exemplo brilhante
de narrativa complexa, ousada e profundamente simbólica, que aprofunda ainda
mais o personagem Dylan Dog reunindo todos os elementos estruturais da série:
vida, morte, investigação, amor impossível, dimensão onírica e horror
existencial.
Angelo em entrevista a Marco
Nucci diz que o roteiro de Sclavi ia além da metalinguagem, era “pura
anarquia…”, suspira Angelo. “Qualquer outro roteirista, na metade do trabalho,
teria entrado em pânico. Tiziano, ao contrário, tinha recursos infinitos:
sempre conseguia tirar o coelho da cartola. O desfecho da história é perfeito,
coloca todos os elementos em seus devidos lugares, mas ao mesmo tempo não
explica nada…”
Foi com Morgana que Dylan Dog alcançou sua grande fama, impulsionando o início da Dylan Dog Mania no final dos anos 1980. A edição ultrapassou a marca de um milhão de exemplares vendidos e a série superou Tex em vendas por algum tempo, o carro chefe da Sergio Bonelli Editore.
Um roteiro ousado, simbólico e
profundamente autoral, de um mestre da narrativa que ainda entregaria histórias
ainda mais poderosas.
Mas.... para Stano: “Tenho que admitir.
Nunca entendi grande coisa daquela história.”
Talvez seja exatamente esse o
segredo de Morgana.


























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