Criar algo realmente original no universo dos super-heróis hoje em dia não é tarefa fácil. Muita coisa parece repetida, heróis surgem aos montes há décadas e, no meio disso tudo, o público vai se afastando aos poucos. Aí surge, lá na França, Imbatível, de Pascal Jousselin e dá aquela chacoalhada boa no gênero. Aqui, o herói não vence pela força bruta nem por poderes cósmicos, mas por algo muito mais inusitado: ele usa a própria linguagem dos quadrinhos para resolver os problemas, com muita criatividade.
Publicado no Brasil pela Nanabooks, Imbatível pode até enganar à primeira vista. O traço é cartunesco, simples, até meio estereotipado, daquele tipo que muito leitor de super-heróis bateria o olho e seguiria em frente.O próprio protagonista, já é uma figura muito estranha por si só, com uma camisa amarela com uma grade de quadros, uma máscara, uma pequena capa e uma barriga saliente. Só que basta começar a leitura pra
perceber que tem algo muito diferente acontecendo. O poder do protagonista
não está nos músculos, mas na capacidade de atravessar os quadros da página, influenciando o passado, presente e futuro da história, com muita criatividade.
Imbatível literalmente interage com a estrutura da HQ. Em uma cena, por exemplo, ele já sabe o que vai acontecer no quarto quadro e, ainda no segundo, lança um objeto que vai atingir o vilão “no futuro”. Em outra, uma âncora cai de um quadro sobre o seguinte, mudando completamente o rumo da ação. É como se a lógica tradicional dos quadrinhos fosse desmontada e remontada com precisão e muito senso de humor.
A graça está justamente em ver até onde Pascal Jousselin leva essa ideia. A cada página, ele inventa um jeito novo de brincar com a mecânica dos quadrinhos, sempre surpreendendo. O resultado é uma obra que combina humor, inteligência e uma criatividade visual raríssima. É daquelas leituras que divertem, instigam e ainda escancaram o quanto a nona arte tem possibilidades praticamente infinitas. E o melhor: não é algo pensado para virar filme, série ou game. Funciona exatamente porque é quadrinho, porque nasce e se resolve ali, na página, tirando o máximo proveito desse formato. Um prato cheio, inclusive, pra conquistar novos leitores, principalmente os mais jovens.
Na França, Imbatível virou um baita sucesso. Começou a sair no Journal de Spirou em 2013 e já ganhou três volumes encadernados pela Dupuis. No Brasil, por enquanto, saíram dois, o último em 2022 e sem previsão de ser lançado o terceiro, infelizmente.
Começando Imbatível #01 - Justiça e Legumes Frescos
A edição é composta por histórias
curtas, algumas com uma página só, outras com mais. Logo no começo, em uma cena
doméstica, Imbatível está na cozinha quando vê, no quadro de baixo, um assalto
acontecendo. Em vez de sair correndo ou agir do jeito convencional, ele
simplesmente “desce” pro outro quadro e resolve a situação antes mesmo do
bandido entender o que está acontecendo.
Tem também momentos em que ele é ameaçado com uma arma, mas continua tranquilo, afinal, já viu como aquilo vai terminar. Um tiro disparado em um quadro pode ter efeito no seguinte. Um disparo “pra cima” pode acertar algo no quadro acima. Com esse domínio da página, ele desarma criminosos, destrói armas e resolve tudo explorando a própria estrutura da narrativa.
Em outra situação, o prefeito pede ajuda pra recuperar uma obra roubada. Enquanto ele ainda está explicando o problema, a pintura já começa a aparecer “vindo do futuro” e é entregue ao herói antes mesmo da missão começar. O prefeito fica sem entender nada mas, para o Imbatível, tudo acontece ao mesmo tempo dentro da página.
A série ainda apresenta outros personagens que brincam com elementos dos quadrinhos. Um vilão usa balões de fala como arma, mudando textos, prendendo pessoas e transformando palavras em ataque. Já um aprendiz, chamado “2D”, manipula perspectiva, achatando o espaço e aproximando objetos distantes só que, como ainda está aprendendo, acaba causando mais confusão do que ajudando.
Outro personagem vai além e atravessa páginas inteiras, não só quadros. A cabeça dele aparece na página seguinte enquanto o corpo ficou na anterior, obrigando o leitor a acompanhar duas ações ao mesmo tempo.
E tem ainda momentos em que a própria edição entra na brincadeira. Em uma história, um ácido “derrete” a página que fica realmente destruída na edição física. É o tipo de detalhe que reforça o quanto a HQ brinca com sua própria materialidade.
Continuando Imbatível #2 - Super Herói da Proximidade
No segundo volume, Jousselin pega
tudo isso e vai ainda mais longe. A estrutura segue com histórias curtas, mas
algumas são um pouco mais longas, o que permite explorar melhor certas ideias.
Personagens do primeiro volume voltam com novas funções. Um vilão preso, por
exemplo, usa a habilidade de atravessar páginas pra tentar fugir chegando a
pegar ferramentas em outras páginas pra ajudar no plano.
Também há uma história que mostra a infância do protagonista, dando pistas de como ele aprendeu a lidar com esse poder desde cedo. Não é exatamente uma origem clássica, mas acrescenta uma camada interessante ao personagem.
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| No Volume #2, uma página poster se desdobra para mostrar a história de duas realidades interagindo ao mesmo tempo. |
Entre as novidades, aparecem ideias ainda mais malucas: uma personagem que vive a narrativa ao contrário, um vilão que divide a realidade em dois universos (um azul e outro vermelho), páginas com duas linhas narrativas paralelas… tudo isso sempre explicado visualmente, sem complicar a leitura.
Um dos arcos mais longos entra de
vez na brincadeira com o gênero. A mãe do presidente dos Estados Unidos (numa
referência clara ao período de Barack Obama) vai até a França pedir ajuda, já
que os heróis americanos não deram conta de uma nova ameaça.
Esses heróis, claramente inspirados em ícones dos quadrinhos dos EUA, aparecem derrotados, hospitalizados, incapazes de reagir. A história ainda brinca com a linguagem ao diferenciar as falas de franceses e americanos por tipos de fonte diferentes como se fossem idiomas distintos. Só o presidente transita entre os dois estilos.
A antagonista desse arco manipula cores, alterando completamente o ambiente e tornando todos os personagens monocromáticos. A solução do conflito depende da combinação dos poderes dos heróis franceses, o domínio dos quadros, da perspectiva e dos balões de fala, reforçando a ideia de que sua força reside na compreensão da linguagem dos quadrinhos, algo que os heróis americanos, dentro da lógica da história, não dominam.
O Grande Nada
No trecho final da segunda edição,
“O Grande Nada”, a história fica ainda mais conceitual. Um alienígena com poderes
parecidos com os de Imbatível entra em cena, e a história começa a explorar a
sarjeta, aquele espaço em branco entre os quadros.
Aqui, esse espaço vira
literalmente um vazio absoluto. Tudo que cai ali desaparece, como se saísse da
própria história. Durante a batalha, personagens são jogados nesse “nada”, e o
herói precisa agir rápido pra salvá-los. É uma ideia simples, mas que amplia
completamente a noção de espaço dentro dos quadrinhos. Até o que normalmente é
invisível vira parte da ação.
Um herói que só existe nos quadrinhos
Em um cenário cheio de adaptações e franquias multimídia, a obra de Pascal Jousselin lembra algo essencial: os quadrinhos ainda têm um território enorme pra explorar. E, quando alguém resolve brincar com isso de verdade, o resultado pode ser tão inventivo quanto irresistível. Imbatível!
| Pascal Jousselin, criador da série Imbatível |
O estilo de Jousselin costuma ser
descrito como simples e cartunesco, mas isso é proposital. A clareza visual
ajuda o leitor a acompanhar ideias complexas que envolvem tempo, espaço e
sequência narrativa. Ou seja, o traço “limpo” funciona como suporte para a
invenção formal.
Jousselin também é frequentemente
associado a uma linha de quadrinhos que valoriza a inteligência do leitor e a
exploração das possibilidades da mídia, mais do que grandes sagas ou
continuidade tradicional. Ele trabalha muito com histórias curtas justamente
para testar conceitos, quase como pequenos “experimentos” em cada página.
Hoje, ele é visto como um dos
autores contemporâneos que melhor exploram o potencial único dos quadrinhos
enquanto linguagem, mostrando que ainda há muito espaço para inovação dentro de
um meio que pode parecer esgotado.





















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